sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Gostos não se discutem, gostos sim...

.................. Decerto já toda a gente ouviu a afirmação "gostos não se discutem" e, na maioria dos casos, também ouviu logo de seguida alguém contrapor que na verdade "até se discutem e educam".
Paradoxalmente, apesar de serem afirmações aparentemente antagónicas, ambos têm razão.
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Na verdade o antagonismo fica-se pelas aparências e é motivado por, infelizmente, a palavra "gosto", sendo só uma, ter de designar duas bem diferentes realidades, impossíveis de meter no mesmo saco.
Se é evidente que há um gosto "hormonal", visceral e imediato que exprime e reflete o modo como nos relacionamos imediatamente com o mundo e o valoramos em termos do prazer que essa relação nos provoca, os relacionados diretamente com os sentidos e as emoções, os que desencadeiam estados de grande intensidade, as simpatias e antipatias pessoais, gastronómicas, olfativas, etc., já outro gosto, concetual e mediato, decorre de fenómenos de aprendizagem e aculturação, produz estados de plenitude intelectual, é um gosto mediado por informação intermédia prévia e, naturalmente, não só se educa como é mesmo dependente dessa educação; estas duas fontes de prazer, conduzem afinal a gostos bem diferentes na sua natureza, um sensorial, outro intelectual e porque pertencentes a mundos diferentes, podem-se suplementar mas não complementar.
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Ser capaz de declarar, sobre determinado vinho, as notas de fruta do bosque madura ou de compota de ameixas amarelas ou a harmonia das madeiras complexas com os taninos é totalmente irrelevante para, sensorialmente, se gostar ou não de um vinho; a menos que se reduza o gosto a um exercício intelectual e de pesquisa, ou a um alardear de competência técnica. Ou seja, saber provar um vinho é uma coisa, gostar ou desgostar um vinho outra e com a qual nada tem a haver. Um provador que não gosta do sabor característico da casta moscatel, pode, por considerar determinado vinho feito com esta casta, inexcedível de qualidades nos diversos parâmetros probatórios, classificá-lo com um 20 e nem por isso passar a gostar de moscatel, ou sequer daquele moscatel! Este conceito, que apliquei ao vinho por ser um campo paradigmático, aplica-se integralmente e por decalque à gastronomia geral.
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Eu, que cultivo em relação ao vinho e à gastronomia em geral, uma relação fortemente sensorial e que procuro que seja o menos intelectualizada possível para não contaminar com pré-conceitos e análises a força bruta e encantadora dos atos de saborear e desfrutar sensações, deixo o intelecto para todas as outras áreas, e são tantas, em que os simples sentidos já não chegam e onde sem educação, sem interpretação concetual, técnica ou estética, não é possível abarcar a obra de forma inteligível e inteligente.
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Não quero com isto dizer que existam gostos totalmente pertencentes a uma ou outra classe. Claro que até em gostos fortemente dependentes da educação e do intelecto, como os gostos pela música, pelo teatro, literatura, arquitetura, pintura, poesia, resta ainda e sempre o frémito, o arrepio emocional, irracional, que identifica a obra de arte e que se aproxima aí do gosto sensorial e imediato que os sentidos primários, paladar e olfato nos proporcionam.
Do lado dos gostos sensoriais e em particular destes que aqui nos trazem, claro que não somos bichos arrastados pela atração irresistível do cheiro da carniça ou do mel. Fenómenos culturais como a gastronomia ou as culinárias contribuem decisivamente para alargar as propostas que se oferecem ao escrutínio do gosto a um nível nunca antes sequer pressentido, nesta maravilhosa aldeia de McLuhan. Os problemas surgem quando em vez de agentes proporcionadoras de livre escrutínio, as propostas gastronómicas se tornam armas de arremêsso nas mãos de quem as usa para se promover e a inconfessáveis desígnios elitistas. Não será preciso pensar muito para recordarmos as delícias do tempo dos nossos pais, não é preciso ir mais longe, que em nome dessa nova ditadura das élites gastronómicas, foram votadas a um ostracismo que rapidamente se transforma em perpétuo esquecimento. Aqui, em vez de se alargar, reduziu-se a escolha e impôs-se, artificialmente, um novo gosto, não ditado pelo palato mas pelos ditadores do paladar.
Cada gosto no seu sítio, o que nem sempre é fácil nesta selva da gastronomia onde com o pretexto de um gosto pretensamente mais educado e afinado que o dos outros, um grupo bem definido quanto ao seu enquadramento socio-económico-cultural, autoproclamado conhecedor e ilustrado, mas em geral a fazer apenas disfarçada exibição da sua implícita capacidade económica de acesso a produtos e cozinhas de élite, dedica-se ao passatempo autogratificante de ditar normas, modas, regras, cânones e compatibilidades para educação e espanto da multidão deslumbrada que, como todos os servos e outros militantes, se apressa a imitar e a seguir as "regras" com a acefalia que é característica das multidões, esquecendo que, no limite, os seres humanos dividem-se, irredutivelmente, entre os que gostam de pão bem cozido e os que gostam de pão mal cozido e que uns dirão sempre do outro que está queimado, ou cru.

3 comentários:

cupido disse...

Já li o teu texto uma meia dúzia de vezes e não me ocorre nada de interessante para dizer (ou, pelo menos, algo que acrescente algo mais).

Tal como outro qualquer objecto de ponderação e análise, o gosto é estranho.

Estranho, porque visceral e educando, mas nem sempre educado.

Dá para tudo, dá para a cozinha e respectiva comida (sem grandes danos na economia familiar, apesar de tudo), dá para o carro (buy a Hyundai), dá para a casa (com telhados de telhas e desenhada pelo desenhador) e até dá para embandeirar em arco quando se impõe o gosto aos amigos.

Já agora e porque falaste do gosto do vinho, o fenómeno é algo diferente, mas pouco. Como já tinha referido @ garficopo, há poucos enófilos de nariz no copo e pouco (muito pouco) missionadores do gosto.

Mas nas sobremesas apresentadas nas nets todos os dias, tens çenas que metem meia blolgosfera a salivar e que são, essencialmente, um mestrado de mau gosto.

É uma festa!

Na verdade, o auto elogio do gosto é bem capaz de ser o grau zero do bom senso. Passando isto para as comidinhas e respectivas reçeitinhas que ecoam na blolgosfera, vais ver jaquinzinhos com natas, os famosos bolols de tudo na caneca e os brázes de tudo a serem mais venerados do que um cozido honesto, um peixe bem frito ou uma açorda.

E o sentido do gosto perdeu-se quando se compra uma qualquer coisa hiper-processada num supermercado e/ou se tem que cozinhar todos os dias para alimentar a família (já falei das porcarias que nos oferecem nas cadeias de supermercados, mas revisitarei o assunto).

O gosto é relativo, sempre. Quem gosta de delíçias do mar não gostará de camarões de Espinho.

Temos pena, mas parece que é mesmo assim...

LPontes disse...

É muito complicado sim, apesar de eu achar que a noção de "mau" gosto ou de "bom" gosto é coisa acidental e do momento: as casas dos "brasileiros" que tanto horrorizavam o "bom" gosto do Eça, são hoje protegidas pelo IPP, e a manteiga de vaca de que tanto gostamos era a mais reles das gorduras para o "bom" gosto romano do Império...
E as delícias do mar do teu e meu horror, no lado espanhol são usados por malta do topo do bom gosto de lá, sob a forma de sucedâneo de angulas, as anguillas!
Era isto o que eu quis dizer: para além de todo o gosto a posteriori à sensação de degustação, esse educado por toda a cultura e caldo cultural associado, há um primeiro, antes de saberes se aquele sabor é mostarda ou gengibre, que é pessoal e inquestionável, não pode ser classificado de bom ou mau, superior ou inferior, é a tua reação de prazer ou desprazer durante o ato sensorial e que te faz, antes de perceberes o tanino ou os frutos vermelhos, saberes se gostas ou não daquele vinho.
Um segundo (ou menos) depois, começa a prova...

António Almeida Inácio disse...

Este é o melhor blog de culinária da net. Dá gosto ler e reler e aprender e aprender. Para os que gostamos da comida portuguesa (e das coisas de outros lados que sempre por cá se fizeram), pratos familiares do tempo em que escasseavam os ingredientes mas sobrava a arte de bem fazer e apurar... enfim, gosto mesmo de ler isto e revisitar a infância e o que é, verdadeiramente, bom e bem feito. Obrigado pelo trabalho extraordinário a que se dá, só para fazer uma coisa, realmente, bem feita! Joana Queiroz