terça-feira, 26 de abril de 2016

Barriga de atum fumada , o “bacon” do mar

              Se é bem verdade o lugar-comum que afirma o atum como a “carne do mar”, já no aproveitamento de todas as suas potencialidades, a carne leva evidente vantagem, sendo que em áreas como a do fumeiro, nada mais há que essa curiosidade algarvia que é a muxama de atum, lombo salgado e seco, que ainda é feito em Vila Real de Santo António pelo velho método que se diz oriundo dos fenícios e que dá uma espécie de presunto duro, bom para petisco e puxavante mas de qualidade gastronómica intrínseca, algo limitada.
Da arte do ronqueio dos tunídeos, de que falaremos aqui dentro de dias, resultam numerosas peças, das quais nunca ouvimos sequer falar, quase todas bem melhores do que o conhecido lombo e de entre as quais avulta a barriga, a que os espanhóis e açorianos chamam “ventresca” e que, pela quantidade de gordura que apresenta, é provavelmente a peça mais promissora, do ponto de vista gastronómico, de todas as que se obtêm do atum.
Do meu “amor” à barriga de atum, nasceu a ideia de tratá-la como se de barriga de porco se tratasse. Da salga e fumeiro que lhe apliquei, nasceu esta preciosidade que, porque não existe à venda, exige que metamos mãos à obra. E bem merece!


Ingredientes:

Barriga de atum, fresca
Sal grosso
Açúcar mascavado
Endro seco
Pimenta preta
Alho em pó
Louro em pó
Azeite
Pimentão fumado
Fumo de azinho

Preparação:

Escolha a parte mais alta da barriga,
se quiser pode escamá-la mas conserve a pele. Misture duas partes de sal para uma de açúcar mascavado, endro, pimenta, alho em pó e apenas uma pitada de louro.
Envolva nesta mistura toda a barriga
e coloque-a assim coberta num recipiente com rede ou chegada a um dos lados de uma travessa, de modo a que, inclinando-a, a salmoura que se forma vá escorrendo. Deixe por dois dias no frigorífico, inclinada. Esgote periodicamente a salmoura que escorre,
de modo a que nunca a barriga fique em contacto com ela, o que a tornaria demasiado salgada.
Ao fim dos dois dias, lave-a dos restos da mistura de curtimenta, obtendo assim esta espécie de presunto já bastante desidratado,
que deverá por de molho em água durante duas horas, para remover o excesso de sal da superfície.
Seque cuidadosamente a barriga salgada e sujeite-a a fumo de lenha de azinho, para o que basta queimar sem deixar arder, uns pequenos pedaços de madeira de azinho bem seca,
sobre um lume de carvão. Note que a barriga vai ser fumada, não grelhada, pelo que deve afastá-la da fonte de calor, de modo a que receba apenas os gases do fumeiro já frios. Ao fim de menos de uma hora de fumo, terá a barriga com este aspecto magnífico.
Pincele com pimentão fumado, desfeito numas gotas de azeite
e deixe no frigorífico por mais um dia de modo a que o sabor do fumo possa dispersar-se por toda a espessura da peça.
Esta delícia é especialmente boa em fatias finas.





7 comentários:

João Pedro Diniz disse...

As cores da peça depois de fumada, são realmente magníficas. E ocorre-me uma pergunta: melhor que muxama?

JG TESTE disse...

Sem duvida um petisco excepcional que eu já tive o prazer de degustar.
Obrigado Luis

vera disse...

Bem, acho que fez o melhor post do mundo....

Maria Gloria D'Amico disse...

Espetacular Luís, desde a explicação tão bem detalhada, incluindo as fotos, até o resultado com a peça em magnífica forma, tão apetitosa.
Eu já tenho provado esta iguaria aqui no Brasil, o que temos similar com o salmão. Mas o aspecto não chega nem perto desta tua confecção, pincelada com pimentão fumado e azeite, fazendo até parecer uma joia.
Um abraço.

castrantonio disse...

Esta peça meu caro Luis Pontes, nem o Dâmaso em V.R.Sto Antonio.
Oa meus parabéns por esta novidade, e já agora aqui fica um desafio...
E porque não "uns chouriços de atum" ???
Bem haja
antónio

Luisa B. disse...

Se adoro muxama então devo também gostar disso. Não me atrevo é a fazê-lo. Parabéns pela coragem.

Luisa B. disse...

Se adoro muxama então devo também gostar disso. Não me atrevo é a fazê-lo. Parabéns pela coragem.