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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Clarinhas de Fão


                      Conheci-as há já talvez trinta anos, numa tasca de pescadores na estradinha que ligava a Apúlia  a Ofir, pela beira-mar, era conhecida pelo Casal Novo e onde passei muitas noites à volta de uma broa de milho e espantosos camarões de porto apanhados na costa ou navalheiras de sabor prodigioso, alguma sardinha assada a fazer de jantar e por fim, sobremesa única, feita ali  e muitas vezes ainda morna, era pegar ou largar, as Clarinhas de Fão, terra mesmo  ao lado.
Hoje o Casal Novo é um restaurante normal e banal, agora rodeado de mais meia dúzia deles, parque de estacionamento em frente, marisco do congelado que o empresário já não tem tempo para pescas e ainda tem Clarinhas, é certo, mas agora fornecidas pela pastelaria de Fão, uma pálida imagem do que eram quando feitas por mãos sábias a pensar na qualidade e não no lucro.
Não se pense, no entanto, que é defeito do restaurante: hoje as Clarinhas estão extintas do ponto de vista da oferta comercial, talvez aqui um pouco por culpa da recolha infeliz de Maria de Lurdes Modesto que, inadvertidamente, passou para a sua Cozinha Tradicional Portuguesa uma versão já adulterada, que ali leva farinha onde devia levar apenas gemas, enfim, a receita que ainda hoje é seguida e que fez desaparecer as maravilhosas Clarinhas de outrora, herdeiras directas, diz-se, dos pastéis de gila de um tal Convento do Menino Jesus, em Barcelos.
A receita que aqui vos deixo, honrando o tema “gila” desta 75ª Trilogia com a Ana e o Cupido, testemunho das que comi e vi fazer na Apúlia, passa assim a ser, provavelmente, a única disponível em ambiente virtual que respeita, muito na linha do tratamento que é dado à gila para o famoso Pão de Rala, esse pastel sublime e irresistível que foi, antes da investida industrial, a Clarinha de Fão. Que vos possa aproveitar.

Ingredientes:

Massa tenra de manteiga e limão*
4 gemas
1 c.s. sumo de limão
Azeite refinado para fritar
Açúcar para polvilhar

Preparação:

Prepare uma massa tenra* usando manteiga e juntando-lhe um pouco de sumo de limão. Reserve.
Misture o doce de gila com as gemas e o sumo de limão e leve ao lume, mexendo sempre até as gemas estarem cozidas e o recheio engrossar. Deixe arrefecer por completo.
Estenda a massa fina com o auxílio do rolo, coloque sobre a massa uma porção de recheio de gila e gemas, 
dobre e corte em meia-lua com a a carretilha.
Frite em azeite refinado abundante mas que não cubra a massa, 
dos dois lados, com calor médio, já que as Clarinhas não se querem douradas como um pastel de massa tenra mas sim… clarinhas!
Escorra e polvilhe sem grande demora, com açúcar.
São boas quentes, mornas, frias, sempre, principalmente se a massa exterior ficou bem fina.
Notas:

*Ingredientes para Massa Tenra de manteiga e limão:

250g de farinha de trigo
40g de Manteiga
1 c.s. sumo de limão
100g de água (aprox.)
1 colher de chá de sal

Preparação:

Aqueça a água até ficar quente mas sem queimar a mão. Dissolva nela o sal.
Aqueça  a manteiga e deite-a sobre a farinha.
Junte a água  e o sumo de limão e comece a bater esta massa com as varas de bolos (ou bata-a e sove-a à mão).
Faça-o durante 20 minutos, juntando água, se necessário, quando a massa for ficando rija, aos poucos.
Descanse 10 minutos e bata mais 10.
A massa está pronta após descansar mais meia hora e deve estar elástica e fofa permitindo ser estendida fina com o rolo não enfarinhado (se ficou uma massa perfeita).