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sábado, 15 de julho de 2017

Couve com toucinho

               É daqueles pratos de que nunca se leu ou ouviu falar e que morrerá com a memória dos últimos que o comeram em tempos infaustos e famintos que se prefere não lembrar, a não ser por terem sido os tempos em que se foi criança e esses, os tempos e os seus sabores, são sempre os melhores de uma vida.
De seu nome Maria Bárbara, fugiu desse fado maldito que a rodeava na Semblana natal, lá para as bandas de Almodôvar e veio quase criança para Lisboa.
Não trouxe dinheiro, não trouxe letras, mas trouxe para toda a vida as recordações dos sabores da aldeia, as açordas simples que não figuram em nenhum livro ou recolha e estas couves com toucinho, ideia gulosa que só se faz quando chega alguma encomenda com os cheiros e o toucinho, aquele toucinho que só há na Semblana.
Fica pois aqui esse prato, rei da simplicidade com os seus dois ingredientes, mas cheio de memórias e evocações da meninice alentejana de Maria Bárbara.

Ingredientes:

Toucinho salgado de porco preto
Couve

Preparação:

Coza demoradamente pedaços de toucinho salgado,
tendo o cuidado de usar a grossa camada de sal que o cobre como tempero do cozinhado.
Quando o toucinho estiver bem cozido e o caldo, que deve ser escasso, bem cheio da sua gordura, retire-o e junte folhas de couve lombarda ou repolho. Reponha o toucinho por cima
e leve ao lume até as couves estrem cozidas a seu gosto.
Sirva as couves e o toucinho com algum caldo e acompanhe este sabor de outros tempos com uma fatia de pão alentejano.



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Outro caldo-verde

                 É impossível falar de uma receita de caldo-verde, tantas são as maneiras de fazer e servir essa deliciosa sopa de couve-galega cortada em juliana finíssima.
Desde os que se resumem à couve escaldada em água a ferver com um fio de azeite, do Norte serrano, aos encorpadas num caldo em que a batata é dominante, até alguns modernaços feitos com coentros em vez de couve, com ou sem rodela de chouriço ou salpicão, com ou sem broa a acompanhar, há poucas sopas mais reconfortantes e icónicas na nossa cozinha.
Fornecendo uma grande quantidade de sais, vitaminas e fibras de excelente qualidade alimentar, o calcanhar-de-Aquiles dos caldos verdes é a grande quantidade de hidratos de carbono que são introduzidos pela presença mais ou menos abundante de batata no caldo. Criaram-se então, para os amantes da linha e das dietas, versões em que a batata era substituída por courgette e/ou couve-flor, o que dava um caldo verde já bastante satisfatório mas um tanto ralo e transparente que fazia sempre ficar a lembrar o sabor bom da batata.
É para evitar essa dificuldade que hoje aqui deixo esta versão de caldo-verde ligeiro, totalmente dietético e a poder-se consumir sem moderação, mas a apresentar um caldo denso, branco e espesso, um caldo a fazer logo lembrar os velhos caldos-verdes de batata, mas sem pecado!
O efeito (e o sabor) obtém-se com o uso de uma couve mal-amada entre nós, a couve-rábano, também conhecida por couve-nabo, seja da roxa ou da verde.
Por dentro parece um nabo mas com sabor neutro e estrutura densa que se adapta na perfeição para estas funções de base de sopa.

Ingredientes:

Couve-galega em juliana finíssima (caldo verde)
Couve-rábano
Couve-flor
Cebola
Alhos
Sal e pimenta
Azeite

Preparação:

Descasque, e parta em pedaços a couve-rábano e a cebola e coza-as com a couve-flor, os alhos, sal, pimenta e azeite.

Passe no copo liquidificador ou com a varinha até obter um puré liso e junte-lhe o caldo verde.
Deixe cozer até a couve estar a seu gosto,
rectifique o sal e sirva apenas com um fio de azeite virgem ou com o que quiser.

Neste caso, optei pelas pequenas azeitonas galegas de sabor ácido e único e por rodelas de chouriço de carne previamente assadas no microondas num prato inclinado,
de modo a intensificar o sabor e extrair a maior parte da gordura e tornar a sopa melhor para a linha.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A couve Pak-Choy

             Ainda há poucos anos era uma raridade que se podia apenas encontrar em alguns bons restaurantes chineses, depois passou a existir nas prateleiras de legumes dos supermercados de produtos orientais e agora é já comum estar à venda em muitos supermercados, sendo que o seu preço se mantém bem mais barato nos supermercados orientais.
A couve Pak-Choy é por vezes chamada apenas “couve chinesa”, o que pode dar origem a confusões com uma outra sub-espécie,
essa sempre conhecida por couve chinesa, ou couve-acelga chinesa.
Por isso, quando estivermos a falar destas, vamos sempre chamá-las “Pak-Choy”, estas couves que parecem uma caricatura de couve e que, apesar de deliciosas, são ainda ilustres desconhecidas nas nossas cozinhas.
Como qualquer couve, a pak-choy pode ser comida de inúmeras maneiras, embora para mim seja inteira, levemente estufada em azeite e alhos, com ou sem o aroma do molho de soja, que ela ganha toda a graça.

Ingredientes:

Couves Pak-Choy, pequenas
Azeite
Alhos
Sal e pimenta
Molho de soja, claro.

Preparação:

As couves pak-choy vendem-se normalmente já ensacadas e em dois tamanhos: as pequenas, das quais dez a doze pesam um quilo, e as grandes, de que em geral chegam quatro para pesarem esse mesmo quilo. Fazem-se da mesma maneira, embora pessoalmente prefira as pequenas.
Lave e escorra as couves. Leve-as a lume esperto
num fundo de azeite onde cortou alguns dentes de alho, tempere com sal e pimenta, tape e deixe estufar entre cinco e sete minutos, de modo a que fiquem ainda firmes.
Se quiser, pode aromatizar com molho de soja, claro (ou escuro se quiser as suas pak-choy castanhas) e/ou sumo de limão.

Acompanha muito bem carnes e peixes grelhados, aqui a acompanhar um sargo,
e liga na perfeição com cogumelos e leguminosas em pratos vegetarianos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Alimado de couve coração-de-boi (reflexão sobre o bacalhau na Cozinha Popular Alentejana)

            Uma leitura atenta de uma resenha editada pela Câmara Municipal de Portel, sobre sopas alentejanas, confirma aquilo que há muito vinha intuindo pela experiência directa de degustação das actuais sopas (açordas) : nas cozinhas popular e de restauração, o bacalhau está a matar a infinidade de sabores simples e poderosos que ali se encontravam e que foram construídos por séculos de fome e pela inventiva com que estas populações lhe sobreviveram.
O bacalhau, hoje omnipresente nas açordas alentejanas, esteve longe de ter sido ali o "fiel amigo" que foi em outras regiões, pela simples razão de que não havia dinheiro suficiente para a sua aquisição.
O consumo de bacalhau foi assim restringido à cozinha das casas ricas, sendo usado pelo povo apenas em ocasiões festivas excepcionais e não constituiu assim um modelo que possa ser invocado como de uso habitual.
O consumo proteico nas famílias dos assalariados ou contratados rurais era muito baixo e resumia-se quase sempre a subprodutos do porco, alguma ave em dia festivo, isto para a carne, sardinhas "amarelas" e cação seco pela parte do peixe, muitas vezes substituídos pela inclusão de ovos nos pratos, basicamente constituídos por vegetais de subsistência, bolota, grão-de-bico, ervas, azeite e pão, sempre o pão.
É preciso bem mais do que recolhas etnográficas a esmo, como aquela que vos mencionei a abrir, para se perceber o que foi essa cozinha, que constitui para a esmagadora maioria da população alentejana rural uma referência directa a algo que para o citadino é uma abstracção, por vezes até enfeitada de algum romantismo tolo, mas para um alentejano rural idoso é apenas fome. E a fome nunca foi romântica, a fome é um insulto insuportável a todos os que por ela passaram!
Assim se explica a presença, hoje quase compulsiva, do bacalhau, o tal símbolo de abastança, em praticamente todas as açordas alentejanas, que à conta desse pretenso enriquecimento, perdem evidentemente na sua espantosa diversidade original.  Mesmo para quem ainda as faça no espaço privado das suas cozinhas, na altura de relatar ou demonstrar a receita para o estranho que a recolhe, impera a ancestral vergonha, a recusa de invocar antigas misérias e é aí que entra, postiço, o bacalhau!

Os "alimados" são, como o conhecido "alimado de cação", feito hoje com o peixe fresco e dantes com a variante seca, sopas engrossadas a farinha e feitas a partir de uma base de refogado de alhos em azeite, temperadas depois com coentros ou poejos frescos e cujo líquido era um qualquer caldo, proteico ou vegetal, se o houvesse, mas as mais das vezes, água. O "alimado" é o golpe final de vinagre, essencial para que a açorda se mantivesse segura durante as horas que passava na panela até ser consumida a meio do dia, nalgum campo distante. Na cozinha alentejana ancestral havia alimados de quase tudo e quando o “tudo” escasseava, alimavam-se uns alhos e coentros e com mais uma côdea estava feita a refeição.
Este alimado de couve coração-de-boi, que descobri por acaso (e saboreei, maravilhado) pela mão mestra de D. Rosa Máximo, lá na “minha” aldeia, é uma das tais sopas/prato esquecidas e  que não figura em nenhuma recolha, a caminho do olvido final da extinção. Mesmo assim já levava o inevitável bacalhau, este alimado de D. Rosa,
mas ficou a referência antiga, que foi a que usei para esta açorda espantosa, toda ela sabor telúrico e simples a invocar no palato outras épocas ainda recentes e de memória triste, na vida, mas que foram, ao mesmo tempo, o motor que desencadeou uma das mais desconcertantes e poderosas cozinhas rurais portuguesas.

Ingredientes:

Couve
Alhos
Azeite
Coentros frescos
Farinha de trigo
Ovos
Pão duro
Sal e pimenta
Água

Preparação:

Estufe couve coração de boi,
cortada em juliana, num fundo de azeite onde estalou alguns dentes de alho.
Junte coentros picados grosseiramente,
depois um pouco de farinha que se destina a dar corpo à sopa,
mexa bem para que não haja qualquer grumo quando adicionar água. Tempere, junte um golpe de vinagre de vinho, deixe ferver até a couve estar a seu gosto e a farinha cozida
e sirva sobre fatias de pão alentejano duro, acompanhada de ovos escalfados
de modo a que a gema esteja cremosa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Penca de Chaves com chispe


               Couves são como chapéus: há muitas!
Da pequena couve de Bruxelas aos grandes lombardos, passando pelo repolho, a branca, a bola, a roxa, a flor e o brócolo, a galega e mais umas quantas a que chamamos “portuguesa”, todas elas couve, uma das plantas mais versáteis e saborosas, prestando-se a uma infinidade de preparações, por cá e por todo o mundo, quase sempre como acompanhamento mas por vezes também a solo, veja-se o caldo verde onde essa esgalgada da galega é rainha.
De entre todas a couves, no entanto, não há nenhuma como essa maravilhosa variedade da couve portuguesa a que se chama Penca de Chaves, cheia de talos soberbos para o bacalhau natalício e depois toda ela folhas tenras e saborosas quando chega a Primavera.
A penca de Chaves, a que também se chama tronchuda, será pois a rainha desta 77ª Trilogia com a Ana e o Amândio, num prato de simplicidade extrema em que a carne é como que o tempero e realce para a verdadeira estrela do jantar, a Penca de Chaves.

Ingredientes:

Couve Penca de Chaves
Chispe e carnes de porco
Feijão (facultativo)

Preparação:

Salgue as carnes, deixando-as por uns minutos dentro de água fria antes de as salpicar com sal grosso e deixe para o dia seguinte, no frigorífico.
Estas carnes devem incluir obrigatoriamente uma parte que forneça gordura ao caldo, usei para esse fim um pedaço de entremeada e uma parte que lhe forneça espessura (gelatina), ou seja uma parte rica em cartilagens, osso e tecido conjuntivo, como é o caso do chispe que usei, mas também serve orelha, focinho ou até couratos.
Coza as carnes em água durante quarenta minutos na panela de pressão. Prove o caldo para ver se o sal das carnes foi suficiente (ou demais).
Arranje a penca e lave bem em água fria.
Retire as carnes e introduza no caldo as folhas verdes da penca, espere cerca de cinco a dez minutos e junte então as partes mais claras e tenras. Deixe cozer por cerca de outros dez minutos e sirva com as carnes e, se quiser com um pouco de feijão a seu gosto, cozido.