domingo, 22 de outubro de 2017

Pêras pardas, saloias

              Existindo também dispersas nas regiões minhota e transmontana, a pêra parda, também chamada "codorno", é um fruto típico da região saloia de Sintra e está hoje em vias de extinção. 
Com uma forma achatada e semelhante à pêra carapinheira, embora maior que esta, a pêra parda distingue-se de todas as outras pêras por ser de uma rijeza e adstringência tais, enquanto crua, que é virtualmente impossível de comer assim.

Pelo contrário, após cozedura, revela-se de uma doçura, sabor e textura maravilhosas.
 Há algumas décadas era uma árvore muito comum na região, mas hoje é quase impossível de encontrar.
Um dos últimos locais onde ainda aparece é na Feira das Mercês, que se faz todos os anos (e está agora a decorrer) num terreno que em tempos foi casa do Marquês de Pombal, junto à Tapada das Mercês, Rio de Mouro, de que vos falei aqui e onde se pode ainda comprar os produtos de S. Martinho, castanhas, batata-doce e água-pé, comprar frutos secos e provar a deliciosa carne às Mercês,  que vos deixei aqui.

Pode ainda provar estas pêras, únicas e a desaparecer, na própria feira ou comprá-las cruas e fazê-las em casa.
Cozer pêras pardas é uma ciência antiga da região saloia de Sintra. Fazem-se assim:

Ingredientes:

Pêras pardas
Erva-doce
Canela em pau
Sal

Preparação:

As pêras pardas são cozidas inteiras e com a sua casca, o que impede a saída dos açúcares internos para a água de cozedura.
Essa água é aromatizada com erva-doce em grão e canela em pau e temperada apenas com sal*.
São introduzidas na água fria para que a pele não estale e cozem por cerca de uma hora, após o que são escorridas e embrulhadas em panos, para terminarem o processo lentamente e sozinhas.
As pêras estão cozidas quando se deixam espetar com facilidade. No processo mudam de cor interior e exteriormente,
tomando uma cor rosada por dentro e escorrendo deliciosas gotas açúcaradas...

Nota: * Por vezes, em casas onde se coze pão, também se usa assar as peras no forno de lenha deixando-as num tabuleiro que entra no forno depois de sair o pão. Prefiro a versão mais usual, cozidas.


2 comentários:

paulo barreira disse...

No interior parecem marmelos cozidos. Aliás, a família é a mesma...

Jose Torres disse...

Que saudades das pêras pardas. Tive uma pereira enorme no quintal que dava frutos generosamente. Um dia começou a murchar e "marchou". Nunca mais consegui encontrar alguma (também a procura não foi constante e intensiva).
Agora, afora as pêras, vou de barriga cheia, com açordas e comidas alentejanas que agora, só esporadicamente saboreio, (depois de ter nascido no Porto, vivi 11 anos em Castelo Branco e deslocava-me por todo o Alentejo, Beira-Baixa e Alta) Saudades dos cheiros e sabores (sem conservantes, sal e açúcar???...).
Vou jantar que fiquei esfomeado