segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Mar está a morrer! (pesca sustentável)

O mar está a morrer!

O nosso apetite insaciável por peixe e a ganância de indústrias cada vez mais poderosas e sem escrúpulos que não sejam os do lucro desenfreado e imediato, transformou os oceanos, berço e suporte de toda a vida, em desertos explorados até à exaustão total.
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Numa altura em que, por todo o mundo, a ordem "democrática" predominante faz com as prioridades de quem governa sejam os seus interesses pessoais, a eleição e a reeleição, impedindo assim qualquer medida realmente eficaz mas necessariamente impopular, a última esperança, se é que ainda há lugar para alguma, poderá estar nas mãos de quem detém o verdadeiro poder económico global: o consumidor, nós!



Ninguém pescará o que o consumidor recusar comprar! As leis de mercado também funcionam ao contrário.
Claro que este poder põe-nos nas mãos uma responsabilidade tremenda, na realidade uma responsabilidade final e desmesurada com que lidamos pela primeira e talvez última vez, se não agirmos agora e bem.

Mas que ninguém diga que não sabia!

A Greenpeace é uma ONG (organização não-governamental), maldita em todos os quadrantes políticos, da extrema-direita à extrema-esquerda, que não lhe perdoam a não sujeição a ideologias e programas e os métodos interventivos e espectaculares.
Em Portugal, a Greenpeace tem desenvolvido uma tentativa de sensibilização junto da grande distribuição estabelecida em Portugal no sentido da identificação de espécies à venda e sua sustentabilidade.

As espécies mais ameaçadas, as que necessitam da nossa intervenção urgente, são também as que mais arreigadas estão nos nossos hábitos alimentares.

Iremos ver em futuros posts, detalhadamente o que se passa com cada uma. Por agora, a "temível" lista Vermelha:

Alabote
Atum
Bacalhau
Camarões
Espadarte
Linguado
Peixe-Espada Branco
Redfish
Pescada
Raia
Salmão
Solha
Tamboril
Tubarões

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Cozer Massa ou "barretes de chef"

Contagiadas pelos delírios organizativos e empresariais norte-americanos, a partir de meados de 80 e com toda a força nos 90, as empresas portuguesas aspirantes a modernaças, passaram a ser "exércitos" sui generis de coronéis e generais: toda a minha gente era chefe de qualquer coisa...

Por essa altura surgiram, à luz da ribalta mediática, os chefs!

Primeiro timidamente, depois como cogumelos, acompanharam, pela viragem do milénio, a passagem da cozinha como arte e saber para a cozinha espectáculo em que o que contava, claro, muito mais que saber cozinhar era saber comunicar e divertir.
Foi a altura em que qualquer apresentador medíocre de televisão, ou humorista, ou dono de restaurante da Caparica passou a “especialista” em doces, receitas, programas de culinária, o livrinho certo nos escaparates… depois surgiram também os chefs “estrela-sexy”: jovens, lindos, louros, exóticos, de turbante, a fazer arregalar o olho do mulherio farto de chefes "Silva", feios, gordos e velhos.
A coisa foi tão vivida e excitante que ninguém se lembrou de perguntar: mas “chefe” de quê ou de quem? Inventou o quê? Criou que prato? Cozinhou onde? Será que sabe salvar mesmo uma mayonnaise talhada? Ou usa Hellman’s?!
E como o showbizz é impiedoso e sôfrego de constante novidade, quanto mais espaventosa melhor, lá foram “criando” as maiores aberrações que a maltinha ignara papava como bíblicos mandamentos, que isto na televisão não dá para ouvir se alguém diz “o rei vai nú”, ainda bem…

Aqui cabe uma pausa para que fique registado que eu acho que não são todos assim: Há magníficas excepções, gente nova a cozinhar e inovar divinamente, gente que está realmente na cozinha a fazer mais que cortar salsa a ritmo AK47*, para papalvo extasiar, ou a "empratar" com muitos riscos e gotinhas pelo prato fora.

Quem não experimenta, quem não questiona a tradição, também não avança.
Os nossos chefes andavam ocupados demais a descobrir umas ervas daninhas para nos impingir como salada “selvática” para perderem tempo a verificar as “regras” da cozedura das massas. Aquilo que era irrisório e que, para mais, toda a gente dizia, estava certo de certeza, não era? A massa coze-se em muita água a ferver em cachão, panela destapada, na razão de um litro para cada 100 gramas! Dizia a mamma, dizia o livro, dizia o chef!
Vitória da democracia: A Verdade é o que a maioria diz que é verdade.

Se a cada semana, um milhão de famílias portuguesas cozinhar 500g de massa desta maneira, gastará no processo 5 milhões de litros de água, mais do que a água de 3 piscinas olímpicas**. Por semana!

No mundo a morrer à sede de água potável, que desperdício de água e de energia! Que inutilidade!

A massa não tem de cozer em muita água!
A massa não tem de cozer a ferver em cachão!
A massa não tem de cozer em panela destapada!


Um litro e meio de água chega e sobeja para cozer 500g de massa, em panela tapada e lume no mínimo.
Depois é tudo igual, a massa não pegou nem colou, cozeu na perfeição e poupou ….. duas grandes piscinas olímpicas.

Nota:
*AK47 lendária espingarda-metralhadora russa, a Kalashnikov, famosa pela sua rápida cadência de tiro, muito igual ao ritmo matraqueante de corta-legumes de alguns dos nossos chefs mais circenses, ou talvez em despique com a Bimby?!
** Piscina Olímpica: 50x22m – 1650m3

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tiramisu (sustentável)

O prometido é devido!
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Para dar ao meu mascarpone o destino mais comum que este queijo costuma ter entre nós, abalancei-me neste fim de semana ao meu primeiro Tiramisu (e último, que eu odeio café doce!!!).
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Tal como vos disse no post anterior, o mundo está literalmente atravancado de receitas deste doce lendário, estou certo que todos os que me lêem o sabem fazer (e se não sabem, escrevem tiramisu no browser...) e portanto, não vou alongar-me em mais uma fastidiosa cópia (neste caso daqui), que, naturalmente adaptei, fundi e simplifiquei.
Há, no entanto, um aspecto que gostava de realçar e que é o da utilização do pão-de-ló em vez dos agora habituais palitos Champagne industriais. Fi-lo como habitualmente com 4 ovos e 125g de açúcar e outro tanto de farinha com fermento e ficou assim:
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Usei café 100% arábica, Colombiano, e licor de coentro, caseiro, para embeber o bolo e polvihei com cacau puro e raspas do novo Lindt 99% de cacau, um "espanto" só acessível aos incondicionais do tom amargo.
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Nota:
O "mascarpone" portou-se como se esperava, ou seja, pelo menos tão bem como o irmão viajado que parla em vez de falar. Quem conhece tiramisu não regateou elogios e o ambiente, claro, discretamente, agradeceu!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

"Mascarpone" amigo do ambiente

Se escrever “tiramisu” no google, obtém qualquer coisa como 4.520.000 entradas, das quais um terço correspondem a receitas deste maravilhoso doce italiano que, à força de estar na moda e ter-se tornado um doce global, já entrou na inevitável via de todos os pratos em voga, ou seja, foi sujeito a anos de simplificações, tipo “bacalhau à Brás com batatinhas de pacote”, sendo hoje raro encontrar um Tiramisu que não seja composto com os inevitáveis palitos Champagne, às vezes ainda chamados “la reine” vá lá saber-se porquê.

Houve quem, ao ler o post anterior, tivesse sido levado a pensar que eu era contra receitas originais o que, como quem me costuma ler bem sabe, está o mais longe possível da verdade: apenas penso que determinados purismos de ingredientes são totalmente despropositados, nomeadamente o uso de ingredientes absolutamente banais mas que, por serem para confeccionar uma receita de origem distante, se pensa que devam ser feitos com os ingredientes lá do sítio original.

O planeta não aguenta purismos destes!
É um pretensiosismo arrogante pretender que só se pode usar o processo “risotto” com o arroz cultivado em Itália.
É ridículo achar que deve usar requeijão italiano só porque a receita diz “ricotta”, quando nenhum ricotta chega aos calcanhares do requeijão de Seia ou São Romão. E “ricotta” é “requeijão” em italiano, mais nada!
Nada justifica que um simples requeijão venha viajar 3 ou 4000 km, envenenando o ambiente e encorporando uma quantidade enorme de energia suplementar desnecessária só para se chamar …… ricotta!

Como o próximo post será dedicado ao Tiramisu, mas sustentável, vamos agora ver de perto o que é o seu principal ingrediente italiano, o queijo mascarpone, e como evitar sem prejuízo do sabor, a utilização desse queijo cremoso italiano, afinal bem substituível.

O Queijo Mascarpone, que até nem é queijo, é, na realidade, uma nata acidificada cremosa e escorrida. É feito em toda a Itália com leites das origens mais diversas, por processos industriais banais. Não utiliza qualquer leite regional especial ou técnica artesanal. Ou seja, é substituível pelo “nosso” mascarpone que fica delicioso, barato, amigo do ambiente e se faz assim:

Ingredientes:

200ml de Natas UHT “para bater”
200ml de Natas UHT Light ou “para cozinhar”
2 colheres de sopa de Sumo de Limão
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Preparação:

Despeje as natas numa panela, misture bem e leve ao lume em banho-maria. Pode usar, em vez das UHT, natas pasteurizadas; o resultado final é, no entanto, o mesmo, e as UHT são muito mais baratas. Deixe atingir a temperatura de 85ºC.
Mexendo sempre, junte o sumo de limão, que provocará um espessamento imediato. Continue a mexer por 2-3 minutos, no banho-maria a 85ºC e leve ao frigorífico por algumas horas até estar bem frio e muito espesso.

Prenda um pano fino na boca de uma panela com o auxílio de um elástico e ponha esta massa a escorrer durante a noite, no frigorífico.
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De manhã terá um magnífico “mascarpone” para uso em Portugal, delicioso, barato e amigo do ambiente.
Este, que fiz hoje, vai servir para o Tiramisu de fim-de-semana, de que vos falarei na Segunda.
Bom Fim-de-Semana!

Nota:

E se, mesmo assim, achar que este mascarpone dá demasiado trabalho em relação a ir ao super comprar uma embalagem italiana, pode fazer um substituto muito fácil e de efeito excepcional para o tiramisu (apesar de, neste caso, não se tratar de mascarpone): Escorra 6 iogurtes naturais num passador de rede durante cerca de 8 horas. Com o iogurte “grego” obtido, misture meio pacote de nata “para montar” e bata com um pouquinho de sal fino até obter uma consistência lisa e aveludada. Use no tiramisu, como se fosse mascarpone.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Gastronomia Sustentável


Quando um barco se afunda, as águas geladas acolhem sem distinção os passageiros da luxuosa 1ª classe e também os desgraçados que se amontoam nas camaratas de 3ª.

Se outras não houvesse a extrair, essa lição igualitária podia bem ser a maior a aprender de catástrofes como a do Titanic, hoje reduzida a uma historieta cinematográfica lamecha, de lágrima fácil e planos grandiosos para encher o olho e esconder a metáfora evidente, assustadora e surpreendentemente actual, na qual os actores somos nós, todos, seis mil milhões de embarcados nesta titânica nave em colapso que se chama Terra.

Teoricamente, se dividirmos a área do planeta pelos seus habitantes, obteremos cerca de 1,8 hectares pessoa. Esta área, um pouco menos de dois campos de futebol por pessoa, é o limite da sustentabilidade da vida na Terra.

No entanto, desde 1999, a média de consumo per capita no mundo é de 2,2 hectares, cerca de 25% a mais do que o planeta pode suportar. E estamos a falar de média, é claro.

À área de planeta utilizada por cada um de nós para vivermos, chama-se “Pegada ecológica” e aqui as assimetrias entre a 1ª e a 3ª classes são colossais: o consumo de um somali “ocupa” 0,4 hectare, um norte-americano usa 9,6 hectares e um europeu, nós, 4,8 hectares.
Ou seja, se todos no mundo consumissem como nós, na Europa, seriam precisos quase 3 planetas (2,66) para nos mantermos.
O planeta que nos foi emprestado, apesar de gostarmos de lhe chamar nosso, está a morrer às nossas mãos e de entre as muitas atitudes irresponsáveis ou até criminosas que constituem o nosso modo de vida, a atitude perante os dilemas alimentares, culinários e gastronómicos é das mais importantes na determinação do tamanho da nossa pegada ecológica.

Porque as alimentação, culinária e gastronomia são e foram desde o seu início as razões de existência deste blog e, apesar de ser um pequeno blog ao pé de outros, o certo é que quatro dezenas de milhar de visitas só este ano, geram uma responsabilidade que não estou disposto a sacudir do meu “capote”.
Se herdei um planeta doente mas vivo, não tenho o direito de deixar um planeta de morte aos que aqui ficam depois de mim.
É por isso que o Outras Comidas deixa de ser, a partir de agora, aquilo que tem sido desde o seu início: uma crónica bastante irresponsável das comidinhas boas que eu vou fazendo, por sua vez cópias dos milhões de receitas também irresponsáveis que, por todo o mundo, arrogantemente, vão difundindo práticas culinárias exóticas que, aliadas ao eterno seguidismo cego bem português em relação a tudo o que vem de fora, faz aqui, quase sempre, que se consiga ficar ainda mais igual ao original que o próprio original!

É triste que num país com queijos fabulosos, se ache que é legítimo emitir uns quilos de dióxido de carbono para importar de avião um queijo, um presunto ou iogurte gregos ou italianos, que lá, naturalmente, são os usados porque são os que lá se fazem!
É triste que a delícia que é o Tiramisu seja manchada por essa exigência provinciana de ter de se usar o “legítimo” Mascarpone, feito a 3000 quilómetros daqui e portanto responsável por mais um pouco do efeito estufa que nos aflige.

Do mesmo modo que, há tempos, alguns blogs se dedicaram a compor refeições a preço módico, também a partir de hoje o Outras Comidas passará a pautar as suas intervenções pelo grau de predação ecológica que esse prato produz e na procura do modo de, activamente e sem desculpas, minorar a sua contribuição para desfigurar esta nossa belíssima casa.

sábado, 4 de julho de 2009

FÉRIAS e REFLEXÃO

....Dentro de dias parto para férias que, em princípio, deverão prolongar-se até 16 de Agosto.
Estas férias serão também, de algum modo, o fim do Outras Comidas como o conhecem.
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Quem se habituou a encontrar aqui, com alguma regularidade, as comidas que vou fazendo, talvez tenha notado que há já um tempo que por este blog não se cozinha.
As velocidades de cruzeiro são perigosas, as rotinas e automatismos anestesiantes impõem, se queremos ser consequentes e coerentes, pausas para reflexão e análise, desapaixonadas e críticas, auto-críticas neste caso.
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Toda a actividade de interacção, mesmo esta aparentemente tão inócua de escrever simpáticos e inofensivos blogs de comidas, gera responsabilidades bem mais profundas que estas alegres patetices com que vou fingindo ser parte de uma vasta comunidade, afinal composta quase toda de envergonhados pseudónimos. Em dois anos de actividade regular, sobram-me dedos só das mãos se quiser ordenar as pessoas que efectivamente se tornaram, saindo da virtualidade anónima, qualquer coisa aparentada com uma amizade, mesmo asséptica…
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Não sei ainda o que irá ser o Outras Comidas a partir de 16 de Agosto, mas terá forçosamente por passar por algo bem diferente deste conjunto amorfo de episódios mais ou menos calóricos que a ninguém aproveitam verdadeiramente, excepto, é claro, ao inchado ego do autor/cozinheiro/voyeur que assim se exibe/espreita, contente, perante uma plateia, quem sabe imaginária…
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Aquilo em que o Outras Comidas se tornará, terá de ser algo que o torne mais que um pequeno palco desta grande feira de vaidades culinárias inconsequentes. E há muito por fazer e por dizer, mesmo através de comidas, neste mundo tão precisado de intervenção.
É o que vou descobrir nestas férias!

Boas Férias!
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Nota:
A quem chegou a este final do post e se interrogou o que seriam estes estranhos números coloridos que hoje aqui foram aparecendo ao longo deste texto , saiba que representam, aproximadamente, o número de crianças iguais aos seus filhos que morreram de fome no mundo enquanto o leu. Dá que pensar, não é?
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

"Dentro" dos Pastéis de Feijão

.....Já lá vai mais de um ano desde que aqui vos deixei a receita e, principalmente, o modo de fazer essa maravilha da doçaria do Oeste que são os Pastéis de Feijão da Fábrica Corôa, em Torres Vedras.


Quando na semana passada andei pela zona, claro que não podia deixar de visitar esta "capelinha" obrigatória e, porque estava presente a dona da fábrica, com o cartão de visita que é este blog, fui autorizado a visitar o coração da fábrica, normalmente interdito ao público.


Pena que já era fim da tarde e a fabricação propriamente dita já terminara, estando já só a fazer-se a embalagem dos últimos pastéis do dia.



Prometida ficou uma reportagem completa do processo numa próxima visita menos atrasada. Ali, como vos disse quando publiquei a receita no Comidas Caseiras, não há segredo, só minúcias, pequenas mas essenciais à obtenção desta maravilha gastronómica que continuam a ser, desde 1940, os Pastéis de Feijão da Fábrica Corôa.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

VERGONHA!

Faz parte da "linha editorial" deste blog, como é dito aqui ao lado no cabeçalho, que não serão feitas transcrições de outros blogs.

Hoje é a excepção!

O texto que a seguir transcrevo é demasiado importante para ser calado ou ignorado. Chama-se "Vergonha", foi hoje publicado no Correio-Mor, um blog ligado aos Correios, por Raul Moreira. Fala de uma ignomínia abjecta que nos diz respeito, a todos e, por maioria de razão, a nós que falamos alegremente de comida:

"Uma reportagem de Lisa Schlein (Voice of America) fazia-se eco deste facto incrível anunciado pela FAO-ONU : atingimos , em Junho de 2009, mais de mil milhões de pessoas com fome neste mundo !
Um sexto dos habitantes mundiais - sobretudo em África e na Ásia - passa fome regularmente.

"A new report found more than one billion people around the world are going hungry. The report by the UN's Food and Agriculture Organization or FAO blamed the global economic crisis and high food prices for pushing a record number of people into hunger. According to the FAO report, one-sixth of all people on earth are going hungry. It said almost all of the billion people who are not getting enough to eat live in developing countries. The Director of FAO's Agricultural Development Economics Division, Kostas Stamoulis, said it is the first time in human history that there are so many hungry people in the world. He said this should not be happening because a lot of the world is very rich despite the economic crisis. So what is happening, he said, contradicts what historically has happened."

"Eu não tenho capacidade para medir a fome de mil milhões de pessoas..." Como muito bem refere hoje no "Público" José Victor Malheiros na sua coluna habitual, ao escrever sobre este facto vergonhoso.
Mas basta pensar apenas numa criança ou num velho, mais perto de nós do que poderíamos imaginar, que vasculhe numa lixeira os restos de alguma lata de comida para nela enfiar os lábios gretados e a língua seca, para nos deixar na mente uma pálida ideia do que aquele número obsceno pode significar no dia-a-dia...
Numa altura em que existe riqueza desmesurada que vive ombro a ombro com a mais esquálida miséria, não sirva a "Crise" de desculpa para os ricos fecharem ainda mais os olhos e distrairem-se com ocupações de classe alta em "resorts" construídos ao lado das favelas..."

in Correio Mor - 1 de Julho de 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Alvarinho Quinta dos Loridos 2007

Sendo que vinho é vinho e pronto, é vinho, há duas maneiras fundamentais de ser encarado: ou é aquilo com que acompanhamos a nossa comida ou, pelo contrário é aquilo que é acompanhado pela nossa comida.
Eu pertenço à primeira tranche, acho que nunca fiz um prato para acompanhar um vinho (os da outra tranche dizem "harmonizar"), embora alinhe às vezes por uma outra via que é a de beber vinho à conversa que, aqui para nós, é como eu mais gosto dele.

Existe ainda uma terceira vertente, a do Vinho Cor-de-Rosa, que Tiago Teles examina de forma magistral aqui e que, sendo a minha exacta opinião mas não conseguindo nem por sombras chegar-lhe aos calcanhares em brilho e assertividade, recomendo uma leitura atenta.

Sendo que leitor é leitor e pronto, é leitor, há duas maneiras fundamentais de sê-lo: ou é dos que, sem tempo, treslê pela rama, mais intuindo que lendo ou, pelo contrário, dos que se detêm no espírito e na letra, tentando chegar à pessoa oculta por detrás daquelas letras.
Não se pense que eu alimento qualquer animosidade ou desdém por qualquer destes leitores: eu próprio, consoante os ditames do tempo, esse tirano, vou sendo um e outro.
Se agora aqui falo disso é porque o texto de Tiago Teles que acima referi é o pano de fundo para o que a seguir vos direi deste maduro, Quinta dos Loridos Alvarinho 2007.

A Quinta dos Loridos é uma propriedade de cerca de quatro dezenas de hectares paradisíacos a que se chega saindo do Bombarral em direcção a Óbidos e virando à direita na primeira rotunda. Após uma longa e ilustre história foi há poucos anos adquirida pelos Vinhos Bacalhôa de Joe Berardo devido às particularidades únicas daquele terroir para a produção de espumantes brancos de excelência que começam agora a dar os primeiros frutos.
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Ali, no meio de exércitos de terracota chineses e gigantescos budas que Berardo decidiu ali implantar num impulso de indignação quando os taliban afegãos dinamitaram os budas de Bamyam, crescem as vinhas de Alvarinho, a mais prestigiada casta branca portuguesa, tradicional do melhor vinho verde, mas que aqui, vinificada como maduro, é a prova provada que o terroir, esse conceito intraduzível que abrange o conjunto ambiental de uma vinha, desde o solo ao clima, é um factor fundamental, talvez mesmo mais que a casta, para definir a personalidade de um vinho.

E que personalidade tem este Alvarinho, Quinta dos Loridos 2007!

De cor citrina, fresco, exuberante e com a acidez “certa” a lembrar o alvarinho da sua origem, firme na boca e um final enorme, com aroma frutado e madeira muito ténue, que aqui não se caiu na pecha nacional de “tratar” qualquer zurrapa em carvalho francês, a fingir de grande vinho.
O Quinta dos Loridos Alvarinho 2007 fermentou apenas 40% do mosto na madeira, de modo a temperar sem abusar, qualificar sem mentir!
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Se for visitar este parque temático budista e improvável no meio de vinhas do Oeste (entrada livre), não esqueça uma paragem na loja de vinhos, à saída, onde tem à disposição todo o universo dos Vinhos da Bacalhôa, até as raridades como alguns dos melhores Palácio da Bacalhôa, e, claro, o Alvarinho Quinta dos Loridos 2007.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

"Capitão" ou um cozido do mato

.......Hoje estudam-se as mais diversas cozinhas e seus nichos e sub-nichos, numa procura algo desenfreada de novidade e exotismo para a satisfação de paladares cada vez mais gastos e simultâneamente mais exigentes.
Há, no entanto, uma cozinha que alimentou milhões de jovens e que tem escapado a esse escrutínio como que protegida por um tabu maldito: a cozinha militar e, principalmente, a sua vertente de cozinha de guerra que, ao contrário do que muitos julgam, estava longe de ser constituída por rações de combate.
Durante os penosos 14 anos de guerra colonial, em messes e quartéis de mato ou até em simples acampamentos de campanha, verdadeiros chefs amadores fizeram uma cozinha única, feita literalmente do que havia à mão, do perigo, da imensa saudade da terra deixada e que se recordava num sabor ou num aroma, aqui e ali a aparecer por entre os sabores africanos.

Nunca tive qualquer experiência de guerra ou sequer militar mas um amigo que já partiu e que trouxe dessa guerra maldita, muito a custo a própria vida e mesmo assim tendo lá deixado parte de si, e não estou a falar em sentido figurado, contava-me as histórias do Capitão, um cozido de mato que, dos dois lados de África, era feito com qualquer coisa, tendo por elementos comuns apenas os enchidos que, obrigatoriamente, eram enchidos vindos de Portugal.
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Ingredientes:
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Chouriço e Farinheira
Toucinho salgado
Azeite (ou óleo de palma ou outra gordura qualquer)
Cenoura ( ou outra raiz)
Batata (ou mandioca)
Couve
Alho
Sal
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Preparação:
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Refoga-se a cenoura no azeite até estar meio cozida.
Junta-se então o chouriço em rodelas muito grossas, o toucinho ás tiras e dois dentes de alho com casca. Mal recomece a estrugir junta-se uma chávena de água e tempera-se de sal.
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Junta-se então a batata ou mandioca às rodelas, a farinheira com a pele picada e a couve que houver, neste caso usei portuguesa.
Fica a fervinhar até estar bem cozido, com a farinheira no topo, até não se poder mais aguentar a fome...

Nota: quando a coluna partia, metia-se nas mochilas o toucinho amarelo salgado, e os enchidos que houvesse, mandados da "metrópole" ou "puto", que eram os nomes que designavam Portugal continental. Depois, com o que houvesse, se faria o "Capitão" de que o capitão também comia, pois claro!