Este
arroz, simples e sem história que justificasse o seu aparecimento por aqui,
serviu como álibi para que vos falasse de uma das especiarias mais preciosas e
também mais confundidas: o açafrão.
Na verdade é muito raro encontrar o termo açafrão empregado com propriedade e, quando acontece estar certo, fica muitas vezes uma pressentida
certeza que a coisa saiu bem, mas por acaso.
Estas confusões ocorrem por muitos motivos: quase tudo o
que se lê por cá (até livros de chefes portugueses… cala-te boca!), provêm de
traduções de livros e revistas americanas e europeias que, como a maioria das
traduções que por cá se fazem, são feitas por curiosos que conhecem
medianamente a língua traduzida mas que não percebem literalmente nada da
matéria do texto que estão a traduzir (veja-se a indigente legendagem de filmes
e séries), já que tradução técnica é algo de caro e raramente considerada
necessária pelas editoras.
A esta bagunça no reino das traduções / plágios, soma-se a
diversidade de termos mais ou menos locais ou vernáculos, uns diferentes para a
mesma coisa e outros iguais para coisas diferentes e ainda as confusões
propositadas num campo em que tudo vale, ou seja, com mais precisão, enquanto
um açafrão pode chegar a custar cerca de 30.000€ por quilo, outro custará
apenas cerca de 25€, também por um quilo, o que faz desta especiaria mais cara
que ouro uma das mais cobiçadas e rendosas contrafacções.
Como vos disse existem três açafrões:
- O verdadeiro açafrão,
estames secos de uma flor, o crocus (Crocus sativus L), que se usa em
pequeníssimas quantidades, 0,1g para aromatizar e colorir uma paella para seis pessoas e cujo
principal exportador é Espanha, (se bem que o principal produtor seja o Irão) e
de que é necessária uma área cultivada de um campo de futebol para produzir 250g
de açafrão (75.000plantas de crocus).
- O açafrão-das-Índias,
que é na verdade a cúrcuma (Curcuma longa L.), um rizoma da família do
gengibre que é o corante amarelo natural mais usado a nível global e na maioria
das vezes chamado apenas de “açafrão”, mas também açafroa e açafrão-bastardo. Usa-se geralmente seco e em pó.
- O açaflor,
flor de uma oleaginosa, o cártamo (Carthamus
tinctorius), usada como corante de
tecidos e alimentar, também chamada de açafroa, açafrão-bastardo e de açafrão e usada no Sul de
Portugal e nos Açores.
As pétalas vermelhas-alaranjadas do açaflor, cortadas em
finos fios e secas, são uma das maneiras mais perfeitas de falsificar o açafrão
verdadeiro, embora as técnicas para o fazer não tenham fim. No Império Romano
existia já a pena de morte para os falsificadores de…. Açafrão!
A única maneira de escapar a esta falsificação
generalizada, a menos que se seja especialista, é comprar açafrão certificado ou
de marcas consagradas, caro, e fugir a sete pés dos “bons negócios”.
Em Espanha existe um controle apertado do açafrão que se
cultiva na região de Castilla la Mancha, que passa por ser o melhor açafrão do
mundo e é originário de Albacete,
Toledo, Cuenca e Ciudad Real; tem a denominação de “Azafrán de la Mancha”.
E esta é a diferença subtil entre açafrão verdadeiro, à
direita, e uma boa falsificação que comprei em Marrocos, à esquerda,
Se puser uns estames numa gota de água, também pode
verificar se está a comprar gato por lebre: enquanto os estames verdadeiros (à direita)
largam uma quantidade discreta de pigmento amarelo dourado, os falsos
(esquerda) “desfazem-se” literalmente em diversos corantes amarelos, laranja e
vermelhos.
Mas neste arroz, que sendo simples ficou muito bom, usei
apenas o açafrão-das-Índias, que é o que uso no dia a dia, reservando o
açafrão, que compro em Espanha, para ocasiões especiais ou pratos, como a
paella, em que o aroma específico do açafrão é necessário.
Ingredientes:
Arroz Suriname
Frango
Cenoura
Cebola
Pimento vermelho
Feijão verde (ou ervilhas)
Chouriço caseiro
Açafrão-das-Índias
Alho
Louro
Sal e pimenta
Azeite
Preparação:
Refogue em azeite, sem puxar, a cebola, a cenoura, o pimento, alho e
louro.
Junte então o frango partido em pedaços pequenos, com ou
sem osso, umas rodelas de chouriço, açafrão-das-Índias, feijão verde em troços
pequenos, sal e pimenta e envolva tudo até o frango começara a alourar.
Adicione
então o arroz,
eu usei pela primeira vez arroz Suriname, a medo, pois sou um
incondicional do arroz carolino do Mondego ou de Alcácer do Sal, mas o
resultado foi o que procurava: o Suriname é um arroz de bago longo que mantém um sabor muito parecido com o carolino e as
características de bago solto dos arrozes longos que eu pretendia para este prato.
Faça este arroz de açafrão como se fosse uma paella,
juntando água aos poucos
e mexendo apenas o suficiente para não pegar, até
estar o arroz cozido.