sábado, 4 de julho de 2009

FÉRIAS e REFLEXÃO

....Dentro de dias parto para férias que, em princípio, deverão prolongar-se até 16 de Agosto.
Estas férias serão também, de algum modo, o fim do Outras Comidas como o conhecem.
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Quem se habituou a encontrar aqui, com alguma regularidade, as comidas que vou fazendo, talvez tenha notado que há já um tempo que por este blog não se cozinha.
As velocidades de cruzeiro são perigosas, as rotinas e automatismos anestesiantes impõem, se queremos ser consequentes e coerentes, pausas para reflexão e análise, desapaixonadas e críticas, auto-críticas neste caso.
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Toda a actividade de interacção, mesmo esta aparentemente tão inócua de escrever simpáticos e inofensivos blogs de comidas, gera responsabilidades bem mais profundas que estas alegres patetices com que vou fingindo ser parte de uma vasta comunidade, afinal composta quase toda de envergonhados pseudónimos. Em dois anos de actividade regular, sobram-me dedos só das mãos se quiser ordenar as pessoas que efectivamente se tornaram, saindo da virtualidade anónima, qualquer coisa aparentada com uma amizade, mesmo asséptica…
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Não sei ainda o que irá ser o Outras Comidas a partir de 16 de Agosto, mas terá forçosamente por passar por algo bem diferente deste conjunto amorfo de episódios mais ou menos calóricos que a ninguém aproveitam verdadeiramente, excepto, é claro, ao inchado ego do autor/cozinheiro/voyeur que assim se exibe/espreita, contente, perante uma plateia, quem sabe imaginária…
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Aquilo em que o Outras Comidas se tornará, terá de ser algo que o torne mais que um pequeno palco desta grande feira de vaidades culinárias inconsequentes. E há muito por fazer e por dizer, mesmo através de comidas, neste mundo tão precisado de intervenção.
É o que vou descobrir nestas férias!

Boas Férias!
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Nota:
A quem chegou a este final do post e se interrogou o que seriam estes estranhos números coloridos que hoje aqui foram aparecendo ao longo deste texto , saiba que representam, aproximadamente, o número de crianças iguais aos seus filhos que morreram de fome no mundo enquanto o leu. Dá que pensar, não é?
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

"Dentro" dos Pastéis de Feijão

.....Já lá vai mais de um ano desde que aqui vos deixei a receita e, principalmente, o modo de fazer essa maravilha da doçaria do Oeste que são os Pastéis de Feijão da Fábrica Corôa, em Torres Vedras.


Quando na semana passada andei pela zona, claro que não podia deixar de visitar esta "capelinha" obrigatória e, porque estava presente a dona da fábrica, com o cartão de visita que é este blog, fui autorizado a visitar o coração da fábrica, normalmente interdito ao público.


Pena que já era fim da tarde e a fabricação propriamente dita já terminara, estando já só a fazer-se a embalagem dos últimos pastéis do dia.



Prometida ficou uma reportagem completa do processo numa próxima visita menos atrasada. Ali, como vos disse quando publiquei a receita no Comidas Caseiras, não há segredo, só minúcias, pequenas mas essenciais à obtenção desta maravilha gastronómica que continuam a ser, desde 1940, os Pastéis de Feijão da Fábrica Corôa.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

VERGONHA!

Faz parte da "linha editorial" deste blog, como é dito aqui ao lado no cabeçalho, que não serão feitas transcrições de outros blogs.

Hoje é a excepção!

O texto que a seguir transcrevo é demasiado importante para ser calado ou ignorado. Chama-se "Vergonha", foi hoje publicado no Correio-Mor, um blog ligado aos Correios, por Raul Moreira. Fala de uma ignomínia abjecta que nos diz respeito, a todos e, por maioria de razão, a nós que falamos alegremente de comida:

"Uma reportagem de Lisa Schlein (Voice of America) fazia-se eco deste facto incrível anunciado pela FAO-ONU : atingimos , em Junho de 2009, mais de mil milhões de pessoas com fome neste mundo !
Um sexto dos habitantes mundiais - sobretudo em África e na Ásia - passa fome regularmente.

"A new report found more than one billion people around the world are going hungry. The report by the UN's Food and Agriculture Organization or FAO blamed the global economic crisis and high food prices for pushing a record number of people into hunger. According to the FAO report, one-sixth of all people on earth are going hungry. It said almost all of the billion people who are not getting enough to eat live in developing countries. The Director of FAO's Agricultural Development Economics Division, Kostas Stamoulis, said it is the first time in human history that there are so many hungry people in the world. He said this should not be happening because a lot of the world is very rich despite the economic crisis. So what is happening, he said, contradicts what historically has happened."

"Eu não tenho capacidade para medir a fome de mil milhões de pessoas..." Como muito bem refere hoje no "Público" José Victor Malheiros na sua coluna habitual, ao escrever sobre este facto vergonhoso.
Mas basta pensar apenas numa criança ou num velho, mais perto de nós do que poderíamos imaginar, que vasculhe numa lixeira os restos de alguma lata de comida para nela enfiar os lábios gretados e a língua seca, para nos deixar na mente uma pálida ideia do que aquele número obsceno pode significar no dia-a-dia...
Numa altura em que existe riqueza desmesurada que vive ombro a ombro com a mais esquálida miséria, não sirva a "Crise" de desculpa para os ricos fecharem ainda mais os olhos e distrairem-se com ocupações de classe alta em "resorts" construídos ao lado das favelas..."

in Correio Mor - 1 de Julho de 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Alvarinho Quinta dos Loridos 2007

Sendo que vinho é vinho e pronto, é vinho, há duas maneiras fundamentais de ser encarado: ou é aquilo com que acompanhamos a nossa comida ou, pelo contrário é aquilo que é acompanhado pela nossa comida.
Eu pertenço à primeira tranche, acho que nunca fiz um prato para acompanhar um vinho (os da outra tranche dizem "harmonizar"), embora alinhe às vezes por uma outra via que é a de beber vinho à conversa que, aqui para nós, é como eu mais gosto dele.

Existe ainda uma terceira vertente, a do Vinho Cor-de-Rosa, que Tiago Teles examina de forma magistral aqui e que, sendo a minha exacta opinião mas não conseguindo nem por sombras chegar-lhe aos calcanhares em brilho e assertividade, recomendo uma leitura atenta.

Sendo que leitor é leitor e pronto, é leitor, há duas maneiras fundamentais de sê-lo: ou é dos que, sem tempo, treslê pela rama, mais intuindo que lendo ou, pelo contrário, dos que se detêm no espírito e na letra, tentando chegar à pessoa oculta por detrás daquelas letras.
Não se pense que eu alimento qualquer animosidade ou desdém por qualquer destes leitores: eu próprio, consoante os ditames do tempo, esse tirano, vou sendo um e outro.
Se agora aqui falo disso é porque o texto de Tiago Teles que acima referi é o pano de fundo para o que a seguir vos direi deste maduro, Quinta dos Loridos Alvarinho 2007.

A Quinta dos Loridos é uma propriedade de cerca de quatro dezenas de hectares paradisíacos a que se chega saindo do Bombarral em direcção a Óbidos e virando à direita na primeira rotunda. Após uma longa e ilustre história foi há poucos anos adquirida pelos Vinhos Bacalhôa de Joe Berardo devido às particularidades únicas daquele terroir para a produção de espumantes brancos de excelência que começam agora a dar os primeiros frutos.
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Ali, no meio de exércitos de terracota chineses e gigantescos budas que Berardo decidiu ali implantar num impulso de indignação quando os taliban afegãos dinamitaram os budas de Bamyam, crescem as vinhas de Alvarinho, a mais prestigiada casta branca portuguesa, tradicional do melhor vinho verde, mas que aqui, vinificada como maduro, é a prova provada que o terroir, esse conceito intraduzível que abrange o conjunto ambiental de uma vinha, desde o solo ao clima, é um factor fundamental, talvez mesmo mais que a casta, para definir a personalidade de um vinho.

E que personalidade tem este Alvarinho, Quinta dos Loridos 2007!

De cor citrina, fresco, exuberante e com a acidez “certa” a lembrar o alvarinho da sua origem, firme na boca e um final enorme, com aroma frutado e madeira muito ténue, que aqui não se caiu na pecha nacional de “tratar” qualquer zurrapa em carvalho francês, a fingir de grande vinho.
O Quinta dos Loridos Alvarinho 2007 fermentou apenas 40% do mosto na madeira, de modo a temperar sem abusar, qualificar sem mentir!
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Se for visitar este parque temático budista e improvável no meio de vinhas do Oeste (entrada livre), não esqueça uma paragem na loja de vinhos, à saída, onde tem à disposição todo o universo dos Vinhos da Bacalhôa, até as raridades como alguns dos melhores Palácio da Bacalhôa, e, claro, o Alvarinho Quinta dos Loridos 2007.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

"Capitão" ou um cozido do mato

.......Hoje estudam-se as mais diversas cozinhas e seus nichos e sub-nichos, numa procura algo desenfreada de novidade e exotismo para a satisfação de paladares cada vez mais gastos e simultâneamente mais exigentes.
Há, no entanto, uma cozinha que alimentou milhões de jovens e que tem escapado a esse escrutínio como que protegida por um tabu maldito: a cozinha militar e, principalmente, a sua vertente de cozinha de guerra que, ao contrário do que muitos julgam, estava longe de ser constituída por rações de combate.
Durante os penosos 14 anos de guerra colonial, em messes e quartéis de mato ou até em simples acampamentos de campanha, verdadeiros chefs amadores fizeram uma cozinha única, feita literalmente do que havia à mão, do perigo, da imensa saudade da terra deixada e que se recordava num sabor ou num aroma, aqui e ali a aparecer por entre os sabores africanos.

Nunca tive qualquer experiência de guerra ou sequer militar mas um amigo que já partiu e que trouxe dessa guerra maldita, muito a custo a própria vida e mesmo assim tendo lá deixado parte de si, e não estou a falar em sentido figurado, contava-me as histórias do Capitão, um cozido de mato que, dos dois lados de África, era feito com qualquer coisa, tendo por elementos comuns apenas os enchidos que, obrigatoriamente, eram enchidos vindos de Portugal.
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Ingredientes:
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Chouriço e Farinheira
Toucinho salgado
Azeite (ou óleo de palma ou outra gordura qualquer)
Cenoura ( ou outra raiz)
Batata (ou mandioca)
Couve
Alho
Sal
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Preparação:
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Refoga-se a cenoura no azeite até estar meio cozida.
Junta-se então o chouriço em rodelas muito grossas, o toucinho ás tiras e dois dentes de alho com casca. Mal recomece a estrugir junta-se uma chávena de água e tempera-se de sal.
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Junta-se então a batata ou mandioca às rodelas, a farinheira com a pele picada e a couve que houver, neste caso usei portuguesa.
Fica a fervinhar até estar bem cozido, com a farinheira no topo, até não se poder mais aguentar a fome...

Nota: quando a coluna partia, metia-se nas mochilas o toucinho amarelo salgado, e os enchidos que houvesse, mandados da "metrópole" ou "puto", que eram os nomes que designavam Portugal continental. Depois, com o que houvesse, se faria o "Capitão" de que o capitão também comia, pois claro!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tarte Tatin

.....Até Janeiro deste ano a tarte Tatin era iguaria que eu conhecia estritamente do "ponto de vista do utilizador".
Na realidade, a minha proverbial malapata com os doces fez que, só com este post de Cinco Quartos de Laranja eu tivesse percebido o modo como era feita a minha tarte preferida.
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Mais uns meses em banho-maria, depois um post de Senhor Prendado com a deliciosa informação histórica sobre a origem desta tarte, teve o condão de, finalmente, me fazer aventurar e aproveitar umas maçãzinhas pequenas e biológicas mas que iam ficando, ficando e teriam um triste fim daqui a mais uns dias..
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Optei pela versão mais "histórica", menos amanteigada e sumptuosa que algumas actuais mas que até permite depois ter alibi para exagerar sem muitos remorsos no chantilly....Cortei na manteiga e no açúcar, usei canela em pó em vez de em pau porque adoro o sabor combinado com a maçã e o chantilly e, é verdade, usei açúcar amarelo.
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Ingredientes:
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Manteiga
Açúcar (usei amarelo)
Maçãs
Cravinho (opcional)
Canela em pau (usei em pó)
Massa folhada
Chantilly
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Preparação:
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Unte generosamente com manteiga uma forma de tarte de fundo fechado.
Cubra a manteiga com açúcar, calque um pouco para que adira e sacuda o excesso solto.
Distribua alguns cravinhos (opcional) e um pau de canela (se não for usar depois em pó). Disponha sobre esta base quartos de maçã descascados e sem o cascabulho, com a parte redonda exterior virada para baixo. Espalhe mais açúcar e polvilhe com canela em pó (se não tiver posto o pau).
Leve a forno quente até ver que o açúcar está caramelizado e as maçãs meio assadas.
Retire do forno, regule este para a temperatura máxima, cubra as maçãs com uma placa de massa folhada (usei massa folhada feita por mim, porque não resisto a uma massa, mas claro que é muito mais prático usar a de compra), pique para não enfolar e volte ao forno até estar dourada. Deixe no forno mais 5 minutos com a porta entreaberta para o folhado ficar estaladiço. Retire e vire num prato de servir.
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Tradicionalmente serve-se morna acompanhada de uma bola de gelado e chantilly. Pessoalmente, gosto mais fria ou até muito fria e acompanhada apenas de muito chantilly (que usei de spray).
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Nota:
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O texto que se segue é transcrito, com a devida vénia, do ex-blog, agora sítio Senhor Prendado, um "senhor que se diverte na cozinha" e é um dos grandes sítios de referência da grande cozinha, em língua portuguesa.
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Um belo dia no final do século XIX, a pousada/restaurante das irmãs Tatin (Stéphanie, a «Fanny», 1838-1917, e Caroline, 1847-1911) em la Motte Beuvron, sempre muito frequentada por caçadores, entrou para a história da culinária.
Dia de muito movimento, Fanny (ainda atordoada pelos galanteios de um caçador sedutor) ao preparar uma tarte de maçãs colocou as frutas na forma e levou-as ao forno, apenas com açucar.
Só depois se deu conta que havia esquecido o mais importante: a massa.
Na correria, não teve dúvidas: retirou as maçãs do forno colocou a massa de tarte sobre as frutas que já estavam semi–caramelizadas e levou tudo ao forno novamente, inventando assim, mesmo sem querer, a tarte ao revés, grande mito da gastronomia: a Tarte Tatin.

domingo, 21 de junho de 2009

Jaquinzinhos Fritos e Ambiente

Quando eu era miúdo a Verdade era composta por conceitos ditos indiscutíveis, o Império pluricontinental, a bondade salazarenta, Deus, Pátria, Autoridade…
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Depois tudo mudou e a Verdade também: agora já tudo se podia discutir desde que não se discutisse a nova verdade chamada democracia representativa, substituta da antiga trindade e tão indiscutível como ela.

Ora, tudo o que não se discute, apodrece ou já está podre e esta conversa fiada vem toda a propósito de Jaquinzinhos fritos!
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O legislador democrático tem, além da sagrada tarefa de legislar, fazer as leis que regulam a vida de quem o elegeu, outros variados misteres menos relacionados com a legislação e mais com a perpetuação do seu tacho, perdão, queria dizer cargo!
É por isso que, quase todos já notámos quão tardiamente e a ferros se faz o parto de cada lei.

O Regulamento (CE) 850/98 é a lei que há 11 anos manda, por considerar o carapau como espécie ameaçada por pesca não sustentável, que seja ilegal qualquer captura de indivíduos com menos de 15cm.
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Que importa que, entretanto, o planeta se tenha posto a aquecer?
Que importa que haja cada vez mais carapau?
Que importa que a comunidade científica seja unânime em considerar que o carapau é uma das poucas espécies que vai beneficiar, e muito, com esse aquecimento?
O nosso legislador tem mais que fazer que importar-se com essas ninharias e assim é apenas devido ao discernimento de quem está no terreno que podemos ter acesso, na prática livre, a esse delicioso petisco que é o trachurus trachurus juvenil ou infantil: o Jaquinzinho!
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Ingredientes:
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Jaquinzinhos
Sal
Farinha
Óleo
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Preparação:
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Amanhe os carapaus. Quanto mais pequenos, melhores mas, claro, o trabalho aumenta em razão inversamente proporcional ao tamanho dos bichos. No meu caso, arranjei o melhor de dois mundos: 700g a serem 148 jaquinzinhos e já arranjados porque há umas santas peixeiras no Mercado da Boa-Hora que se vão entretendo a arranjá-los durante a manhã. Precioso!
Disponha os peixes e salpique com sal fino, pouco pois é fácil ficar salgado.
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Deixe salgar por cerca de meia-hora, passe-os por farinha numa tigela em que possa pôr, de uma vez, uma grande mão-cheia, sacuda-os bem da farinha excedente (eu uso uma peneira de malha larga) e frite-os em lume quente em frigideira funda e óleo abundante para que não seja necessária qualquer viragem durante a fritura. Escorra e sirva assim muito quentes.
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Acompanhei com um arroz carolino de tomate e coentro , meio malandro mas sem excessos "risóticos".
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Nota: Quem me conhece e segue mesmo que ocasionalmente este blog, sabe as preocupações ambientais que o movem, nomeadamente no que respeita ao consumo não sustentável de espécies selvagens como é o caso, infelizmente, da maioria dos peixes da nossa dieta. Mas a cada coisa a sua razão: não é o caso dos pequenos jaquinzinhos do nosso deleite.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Feijoada de Cabrito

Chegaram os feijões de debulhar!
A Rua Luís de Camões une a Calçada da Tapada e a estação da carris de Santo Amaro. Aí, mais ou menos a meio, está todas as manhãs uma velhota simpática que vende ali no chão, sobre um plástico, uns poucos produtos do seu quintal, vestígio fóssil de um comércio de subsistência que acabou há muito nas cidades. É lá que encontro mimos como espinafres bravos, caldo verde mesmo fino ou estes magníficos feijões catarino, de debulhar!
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Gosto muito de leguminosas em geral mas este feijão fresco com a sua capacidade para cozer o tempo que for preciso sem nunca rebentar é irresistível para mim. Ontem, e porque um feijão assim ilustre merece acompanhar algo de nobreza equivalente, decidi experimentar uma feijoada de cabrito.
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Ingredientes:
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Cabrito não muito jovem, ou cabra jovem.
Feijão debulhado
Cenouras + Cebola + Alho
Tomate + Polpa de tomate
Couve Repolho (facultativo)
Sal, Pimenta Preta, Cravinho,
Molho de piri-piri em vodka ou em azeite (facultativo)
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Preparação:
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Coza a carne conforme a sua qualidade até estar bem tenra e sair dos ossos com facilidade. Desosse e parta em pedaços grandes. Deixe arrefecer por completo o caldo da cozedura.
Retire a gordura sólida que se formou à superfície do caldo (ou apenas parte dela, se for muita) e refogue nela o alho, cebola e cenoura. Junte depois o tomate sem pele nem sementes e polpa de tomate. Tempere e deixe fervinhar por 10 minutos.
Junte então caldo de cozer a carne, o feijão e a couve repolho se estiver a usá-la, rectifique os temperos se necessário, tape e deixe cozer em lume baixo até estar o feijão cozido e o molho apurado, o que pode demorar entre 20-30 minutos. Deve ir provando o feijão porque ele nunca se desfaz como o seco.
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Servi com arroz branco e molho de piri-piri caseiro, em vodka, que cada um põe à sua vontade, no prato.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Carbonnara Minimal

Há anos que não acampava assim, de tenda, ao pé do mar.
O tempo passa e nós vamos, sem notar, ficando mais comodistas e aburguesados, cheios de posses e luxos com que não sonhámos mas que se instalam devagarinho e de repente já são indispensáveis.

Dantes eu era fervoroso das festas da minha cidade, a noite de Stº António era imperdível, as sardinhas mal assadas comidas no pão a uma porta qualquer de Alfama, com um copo de mau vinho e bebedeira certa.
Também aqui o tempo passou, mais na festa que em mim e deixou mossa: agora as sardinhas (€2.50 cada) já se vendem em bancas com licença camarária, certificado de sanidade e ficha de pescado e tudo é regulado e licenciado que tantos milhares à solta por Lisboa é negócio que não se pode perder.
Foi disto que eu fugi!

Sexta à tarde, mal pude, lá fui para essa maravilhosa costa que teima em resistir ao longo do Alentejo, equipamento minimal, sacos-cama, uma panela, duas tigelas, um fogãozito e uma tenda dessas modernas que se atiram ao ar e aterram já montadas, empréstimo da filha mais nova.
Das alegrias daquelas praias e daquele mar indomado mas bom, sabem os que o conhecem que são vivências que não se escrevem nem descrevem; o que aqui nos traz são as comidas e, porque neste ambiente de prazer também a comida o deve ser, aqui vos deixo a Carbonnara que foi jantar de Sábado, o Sol já a mergulhar no Atlântico, vermelho e mais vermelho, como é que se pode chamar "pôr do sol" a tanto restaurante?

Ingredientes:

10 ninhos de Tagliatelle all 'Uovo
150g de Toucinho Fumado
3 dentes de Alho
4 colheres de sopa de Azeite
4 Ovos
100g de Grana Padano
Pimenta Preta
Sal

Preparação:

O que me levou a chamar "minimal" a esta carbonnara não foi qualquer escassez de ingredientes, que estão lá todos, mas sim o facto de ter sido preparada com uma economia total de meios no que respeita a trem de cozinha: uma panela e uma tigela!

1º (panela) - Frite o toucinho fumado e o alho aos pedaços pequenos no azeite até ficar estaladiço. Claro que pode usar pancetta italiana se quiser ser purista e tiver "lata" para comprar toucinho a preço de lagosta, eu não. Passe para a tigela e reserve.
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2º (panela) - Coza o Tagliatelle em água e sal. Escorra mal escorrido quando estiver al dente mas ainda para o lado "duro". Junte o toucinho frito e o azeite, envolva e deixe a acabar de cozer em lume baixo.
3º (tigela) - Enquanto a massa absorve o sabor do toucinho, bata os ovos com metade do queijo e a pimenta. (pode, se quiser, substituir até metade dos ovos por duas gemas cada ovo, rejeitando a clara. Usei Padano em vez do tradicional Parmesão porque era o que tinha em casa; o queijo da Ilha S. Jorge também dá um belo efeito).

4º (panela) - Junte o resto do queijo e pimenta, envolva, retire do lume, espere uns instantes para que pare qualquer fervura e adicione então os ovos. Envolva continuamente para não deixar cozer o ovo que deve ficar cremoso.
5ª (tigela) - Divida pelas tigelas e faça delas o seu prato.


Foi acompanhada pelo pôr do sol, pelo marulhar das ondas e por este Periquita de que ontem vos falei.

Nota: Ah! É claro que as tecnologias comportam quase sempre um certo potencial gerador de ansiedade, o Homem pequeno perante a máquina que não compreende! A tenda de montagem milagrosa, um segundo diz a propaganda do vendedor e é bem verdade, não vem equipada com a mesma presteza em matéria de desmontagem. Foi uma luta desigual em que a máquina esteve quase sempre a vencer, a Inês lá de Milão a dizer - mas pai, é tão fácil e intuitivo! - e eu sem intuir coisa nenhuma até que, num derradeiro golpe de sorte, verdadeiro John Connor e a Tenda Terminator, lá a reduzi à sua dimensão de bolacha original!

Venceu o Bem!

domingo, 14 de junho de 2009

Periquita 2005

Não é impunemente que se nasceu em 1850!
Com o título incontestado de ser a mais antiga marca de vinhos em Portugal, o Periquita, nascido há 169 anos, tem-se mantido ao longo de toda a sua vida centenária como uma nota de continuidade e valor no universo vínico da José Maria da Fonseca.

Claro que em quase dois séculos, teve tempo para ser moda, para passar de moda, para ser distinto e popular, vinho de jovens e depois, de velhos.

Feito com Castelão, Trincadeira e Aragonês, está mais uma vez a renascer e reafirmar-se neste período em que Portugal vai percebendo a tolice da recente moda das castas ditas globais, Chardonnay, Sirah, Cabernet, etc., ideais para as potências vínicas emergentes mas que nada têm a dizer num universo riquíssimo e único como o das castas que fazem os vinhos portugueses.

O Periquita 2005, obra da mão sábia de Domingos Soares Franco, com 85% de Castelão e 7,5% das outras duas tem uma estrutura muito mais no estilo Periquita pré 1999 (quando era 100% Castelão, um dos primeiros monocasta portugueses).
Intenso de aroma, abre devagar, frutado e agradável. Na boca é bem firme, com uma acidez delicada, ainda jovem, bem estruturado e com um final simples mas persistente.

Apesar do peso de toda a tradição, o Periquita 2005 é bem o exemplo da pujança com que renasce a península de Setúbal no que respeita aos seus vinhos.

Nota:

Saliente-se a coragem com que a José Maria da Fonseca adoptou para este vinho centenário uma rolha reciclada que, nesta área tão cheia de purismos marialvas, ainda faz torcer muitos narizes. Mas esse é um assunto tão importante que será tema central de um post, daqui a uns dias.