domingo, 18 de janeiro de 2009

Rim de Porco Salteado

O rim, pelas funções fisiológicas que desempenha no animal vivo é comparável a um filtro, transformando-o, no imaginário de muitos, em algo de repugnante e maldito.
Lembro-me de, na minha juventude, ser preciso encomendar rins nos talhos da região de Sintra, onde se era olhado como um ET de gostos pervertidos por querer comer uma víscera que, normalmente, era imediatamente destinada ao balde da carne para cão.

Que injustiça! Se é verdade que foi um filtro, não é menos verdade que tudo o que filtrou e excretou foi formado nos músculos com que nos deliciamos, de boa mente.
Dotado de um sabor forte e inconfundível, presta-se a requintadas utilizações culinárias.

Como com quase todas as vísceras, também o rim se ama ou odeia.
Eu, decididamente, sou dos que ama e esta variedade de “sauté” é a minha preferida pelo sabor e simplicidade.

Ingredientes (para 4):

8 Rins de porco, (ou 800g de vitela)
Alhos
Louro
Sal e Pimenta
Vinho branco
2 colheres de sopa de Banha de porco
3-4 colheres de sopa de Azeite
800g de Batatas
Salsa picada

Preparação:

Peça no talho para arranjarem os rins.
Se comprou embalado (o que deve evitar) ou, como eu, gosta de arranjar a carne, deite-o sobre a tábua e abra o rim ao meio.



Retire toda a parte central com uma faca muito afiada, removendo todas as estruturas e linhas brancas, deixando assim apenas o córtex, a parte maciça, exterior, do órgão. Lave em água corrente.




Corte cada metade do rim em cubinhos pequenos, tempere com alhos, louro, sal, pimenta e cubra de vinho branco. Deixe a marinar umas horas.



Aqueça a banha com o azeite numa frigideira e deite nela os cubinhos de rim, escorridos da marinada, deixando-os fritar rapidamente com lume muito forte, mexendo.
Quando estiverem uniformemente fritos adicione a marinada e deixe reduzir até o molho recomeçar a fazer ruído de fritar e estar grosso.
Se deixar fritar demais e a parte mais espessa do molho começar a "separar", junte mais um pouquinho de água e mexa para ligar.



Frite à parte batatas em cubinhos pequenos, de tamanho comparável ao da carne. Quando estiverem bem fritos, junte-os à carne, junte a salsa picada, nenvolva tudo rapidamente no molho e sirva logo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Risoto de Boletos frescos


Não há cogumelo que chegue ao selvagem.

Sempre que posso, nesta época, vou à caça destes verdadeiros presentes da Natureza, que estão um pouco por toda a parte, depois de umas boas chuvadas outonais.

Quero, no entanto, frisar que a apanha de cogumelos é uma actividade perigosa, mesmo mortal, se feita sem o necessário conhecimento das espécies comestíveis e …… das venenosas!
A melhor maneira de aprender é com a ajuda de alguém que já o faça.
Depois de se conhecer uma espécie, ao vivo e a cores, é tão possível haver confusão como, por exemplo, confundir uma galinha com uma perdiz, uma couve com uma alface. Mas se alguém tentasse fazer estas distinções aparentemente absurdas, só baseadas em fotografias ou desenhos em livros….. o desenho de uma perdiz não é assim tão diferente do de uma galinha, pois não?

Agora que a recompensa por este conhecimento iniciático vale pena, garanto que vale!

Nestas férias, um passeio pela floresta da Serra Algarvia, entre Santa Clara a Velha e Monchique, deu como resultado um belíssimo acervo de Boletus granulatus uma das várias espécies de Boleto que frutifica nas nossas florestas.
O Boleto mais conhecido e apreciado é o Níscarro ou Boletus edulis, os famosos Funghi Porcinni italianos, mas estes “granulatus” desde que se lhe remova a cutícula mucóide que cobre o chapéu em tempo húmido, dá uma excelente e aromática carne, ideal para um risoto, que foi o que se fez.

Ingredientes:

250g de Cogumelos selvagens, arranjados (neste caso Boletus granulatus)
0,5 dl de Azeite
3 dentes de Alho
1 Cebola pequena
1 folha de Louro
1 colher de sopa de Vinagre de vinho
Sal
1 chávena de Arroz de bago curto
75g de queijo prato
Queijo Parmesão ou Grana Padano

Preparação:

Arranje os cogumelos, raspando o pé e fazendo destacar a pele mole como muco que cobre o chapéu, expondo a carne branca e firme que está por baixo. Parta-os ao meio, ao alto.

Refogue no azeite os alhos e a cebola picados, o louro e, quando começarem a alourar ligeiramente, junte os cogumelos e a colher de vinagre.
Deixe evaporar o vinagre e o liquido que os cogumelos vão libertar e depois junte o arroz. Mexa até ficar translúcido.
Vá então juntando água quente, aos poucos, pelo método usual para risotos, tempere de sal e, no fim junte o queijo prato e mexa para homogeneizar.
No prato rale Parmesão ou Grana, a gosto.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Peixe Galo Grelhado, com Palhada


O Peixe-Galo (Zeus faber), é um dos mais requintados fornecedores de filetes da nossa costa, quer continental quer dos Açores.
Tem uma carne firme e aparentada em sabor com a do tamboril. Lembro-me de ouvir a minha mãe dizer que, na Criação, eram dois exemplares de um só peixe muito vaidoso pela sua beleza e que Deus, farto de tanta gabarolice, deu uma palmada a um, tornando-o feio e esborrachado, foi o pai de todos os tamboris.
Ao outro esborrachou-o entre as mãos, batendo palmas e dando origem ao pai de todos os peixes-galo.
Mas, no prato, o sabor continuava a ser o mesmo!

O Peixe-Galo tem uma cabeça desmesurada e inútil. Oca, nem para sopa serve, como a do Pampo, também grande mas excelente.
No Peixe-Galo, a excelência está na carne do pequeno corpo.
Normalmente usada para filetes, a carne deste também fica muito boa feita au meunier, ou ainda como é apresentado no restaurante do Clube Naval da Praia da Assenta, grelhado ao natural, verdadeira maravilha que eu escolhi desta vez para estes peixes-galo pequenitos, menos de meio quilo cada, tamanho ideal para serem dose individual.

Como era a primeira vez que ia grelhar Peixe-Galo, decidi experimentar outra novidade como acompanhamento: a Palhada.

Apresentada pela Risonha, aqui, com referencia à Luísa Alexandra, aqui, por sua vez reproduzindo algo que se come num tal restaurante Truão, esta Palhada não me convenceu à primeira leitura; alface melada não preenche bem o meu ideal de delícia. Mas os elogios e a constatação diária que as melhores coisas são, muitas vezes, as mais improváveis, levaram-me a avançar para a experiência.
Em boa hora que o fiz: a Palhada entrou directamente para o Top 10 dos acompanhamentos e é, realmente, uma (improvável) delícia!

Ingredientes:

Peixe-Galo
Sal
Limão
Puré de Batata
Alface
Cebola
Azeite e Vinagre

Preparação:

Quando comprar o peixe-galo, tenha cuidado pois o hábito é tão forte que bem pode acontecer que, antes que tenha tempo de dizer algo, já ele está esfolado e em filetes.
Diga logo que quer apenas a cabeça e as barbatanas cortadas e que não quer que seja escamado. O Peixe-Galo tem escamas quase microscópicas, “tempero” essencial do grelhado.

Em casa, retire o baço, que é aquele “sangue” que está junto à espinha, sob uma pele, e tempere com um pouco de sal marinho integral, grosso.

Faça um puré de batata bem firme, mesmo mais firme que o costume, duro. Se for preciso, junte no fim um pouco de flocos “instantâneos” para o secar bem.
Faça uma salada com alface em juliana e cebola cortada muito fina, tempere generosamente com azeite e vinagre e misture a esta salada o puré, que deve ser muito menos que a alface e que a deve envolver bem. Reserve.
Durante o tempo da grelhada a alface vai amolecer pela acção do puré quente; é mesmo assim. Está pronta a Palhada!

Grelhe em lume forte, no carvão ou na chapa, ao lume.
Não use grill em que o calor atinja o peixe pelo lado de cima.
Sirva com uma rodela de limão.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Pudim de Pão






Uma volta pelo historial deste blog mostra à evidência quão parca é a contribuição de doces e sobremesas para este cardápio: 6 posts 6, em oitenta e tal! Não há mais ninguém assim por aqui, suponho, excepto o Cupido, que ainda me “ganha” ! :-)

À laia de projecto de boas intenções para o ano que começa, decido, não digo inverter este estado de coisas mas, pelo menos, prestar um pouco mais de atenção a esta parte doce das nossas refeições.
Claro que cada um é o que é e provavelmente daqui a um ano estou a constatar o mesmo e a prometer coisas que depois não cumpro…. Vou tentar atingir o objectivo de uma sobremesa ou bolo em cada mês, pode ser que consiga.

A razão desta pobreza na área do açúcar prende-se, na realidade, com um problema maior, antigo, que provavelmente morrerá comigo, mas não antes: eu sou quase incapaz de seguir uma receita, respeitar uma quantidade ou proporção, não inventar uma achegazinha, nem que seja para ver o que dá.
Ora, se esta peculiaridade da minha personalidade acaba por ser útil e produtiva em culinária geral, já em doçaria, ser-se assim é passaporte para o desastre, que é o que mais acontece nas minhas inovações doceiras. Ou a coisa fica boazinha mas tem de ser comida da forma, de onde não sai nem à pancada, ou até fica bonitinha mas o sabor, valha-nos Deus!

Não há como conhecermo-nos e adaptarmo-nos! Vou cumprir já hoje o meu “objectivo” de Janeiro e, para que não haja contratempos, será coisa bem simples, boa e que aguenta barbaridades de variação relativa entre ingredientes.
Mesmo a meu gosto este Pudim de Pão!

Ingredientes (todos + ou -):

3 carcaças
7 dl de leite
1 chávena de açúcar
6 ovos
Raspa de 1 limão
3 colheres de sopa de açúcar

Preparação:

Ferva o leite com o açúcar e a raspa de limão. Aqui pode usar, em vez do limão, vagem de baunilha, noz moscada, gengibre, raspa de laranja, enfim, o que quiser que seja o aroma base do seu pudim.
Regue o pão com este leite bem quente, mexa com se estivesse a fazer uma açorda, junte os ovos e mexa de novo para ligar bem. Não use batedeira pois esta dará uma consistência esponjosa ao pudim.

Leve as 3 colheres de açúcar ao lume com umas gotas de água na própria forma em que fará o pudim que, por isso, deverá ser metálica. Deixe caramelizar até estar com um bonito tom dourado escuro e, com o auxílio de um pincel de cerdas vegetais, espalhe por toda a superfície interna da forma. Deixe arrefecer.

Vaze a massa na forma e leve ao forno, em banho-maria (serve pôr a forma no tabuleiro do próprio forno e deitar neste uma ou duas chávenas de água quente).
Coze durante cerca de 1 hora em lume médio/ brando.

Deixar arrefecer bem, no frigorífico, antes de desenformar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Filete de Pampo



Balistes capriscus é o nome científico do Pampo, também conhecido por Peixe Porco, com o qual retomo o prometido roteiro gastronómico das férias de passagem de ano.

Peixe usual na nossa costa, o Pampo possui, sob uma pele coriácea que dificilmente se consegue cortar, uma carne extraordinária de firmeza, sabor e brancura, feita como que de propósito para ser utilizada como base de um dos mais suculentos filetes que podemos provar.

Amanhar um Pampo não é tarefa fácil. São necessárias, além de perícia e até alguma força física, uma faca extraordinariamente afiada, tudo isto para proceder à esfola do peixe, primeiro passo para chegar aos desejados filetes.
Neste caso, aconselho vivamente entregar esta operação ao profissional a quem adquirir o Pampo. Foi o que eu fiz (eu que adoro as “preparações”) com este que comprei, fresquíssimo, no mercado de Vila Nova de Milfontes. Leve consigo cabeça e espinha, excelentes para fazer uma sopa ou massa.

Não irei repetir o modo de preparar filetes, tantas vezes referido. Estes foram temperados com muito pouco sal, passados em farinha e ovo e fritos em azeite, com lume forte.

Acompanhados com batata e grelos biológicos ( nos mercados ainda se encontram “mimos” como estes, molhinhos prontos a cozer, individuais), temperados com azeite e vinagre.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

La Minestra


“A sopa é a coroa de glória da boa cozinha. É o toque de trombeta da vitória, assinalando o triunfo do paladar sobre a substância, do amor sobre a vida. /…/ Por isso uma boa sopa não pode ser dissecada. Pois espelha a vida de muito perto”.

Radhika Jha – O Elefante e o Maruti ( O Cozinheiro), Dom Quixote 2005



As sopas são entidades misteriosas, mais pessoais que impressões digitais.
Se para o resto da culinária se pode dizer que uma boa receita, se escrupulosamente seguida, dá um resultado preciso, já para as sopas este axioma é tudo menos verdadeiro.
Todos já passámos pela frustrante experiência de tentar emular uma sopa de “alguém”.

A Minestra, sopa mediterrânica por excelência e base de qualquer refeição em Itália, é, na sua versão mas elaborada a chamada Minestrone, verdadeiro mostruário de tudo o que uma horta produz e na versão mais simples a lendária Zuppa di Patate, pobre dieta de guerra para milhões de italianos pobres.

Chamar-lhe-íamos aqui Sopa de Legumes e, claro que não tem receita-padrão: A Sopa, La Zuppa, La Minestra, é a "alma" da mamma (ou do pappa) que a faz.

Esta é a minha “minestra”. Nunca conseguirá fazê-la igual, do mesmo modo que eu nunca conseguirei fazer uma igual à sua. Mas, se espreitar bem, conseguirá ver-me a alma!

Ingredientes:

Azeite, couves Coração e Lombardo, pimento, tomate, cenoura, batata, batata doce, alho francês, alho, louro, cebola, courgette, nabo, salsa, carne de vaca, osso de vaca, carne de porco salgada, massa média e, que não ficaram no retrato, sal, pimenta e feijão catarino já cozido.

Preparação:

Coza as carnes em água e sal.
Refogue no azeite a cebola, o alho, alho francês, cenoura e salsa.
Junte os restantes ingredientes, excepto a massa, cubra com o caldo de cozer as carnes e deixe cozer.
Quando estiver quase pronto, junte as carnes partidas em pedaços e a massa e deixe acabar de cozer e apurar.

Sirva quente. Uma minestra aquece o corpo e a alma!

sábado, 10 de janeiro de 2009

Cake Indiano de Peru e Caril


Quando há uns poucos dias a Pipoka o publicou, no Three Fat Ladies, eu soube de imediato que iria em breve experimentar esta "bôla" oriental.
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Com os restos de perú de Natal, que acabam sempre a secar por tempo indeterminado no congelador, meti mãos à obra e dentro em pouco estava pronto este delicioso bolo salgado, que, durante o (pouco) tempo que sobreviveu, mostrou como pode ser versátil, quer sendo petisco de momento, refeição leve ou acompanhamento de um vinho em cavaqueira.
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A receita é quase a da Pipoka: o "quase" deve-se, principalmente, às nossas evidentes diferenças quanto ao grau de "calor" que um caril deve ter.
A Pipoka usou Caril Madras, não sei se o hot, se o medium hot.... de qualquer modo, para mim, tenho que mesmo o medium já é puro "suicídio por combustão interna" :-), pelo que utilizei um vulgar caril indiano com muito sabor e bem pouco "calor". Cada um com seu gosto!
Claro que usei o peru que tinha em casa em vez do frango original e como suspeitei logo que a receita dela não era coisa para precisar de ensaios, tinha cara de ser êxito garantido, dupliquei logo as quantidades e não me arrependi.
Tivesse triplicado e teria marchado na mesma.
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Ingredientes:
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3 colheres de sopa de caril em pó
360 g de farinha para bolos com fermento
6 ovos
2 dl de leite de coco
2 dl de azeite
2 colheres de sopa de coco ralado
240 g de peru ou frango cozinhado ( usei muito mais, sem pesar)
Sal
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Preparação:

Misturar todos os ingredientes líquidos e depois a farinha misturada com o caril.
Juntar o frango desfiado e temperar com sal. Verter a massa numa forma de bolo inglês untada e enfarinhada e colocar imediatamente no forno.
Coze durante cerca de 50 minutos em forno médio.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Perna de Frango by me

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Se eu não tivesse esta profissão meio ambígua, meio maldita, curandeiro para uns, terapeuta para outros, “virtuoso” no Sul, bruxo para muitos, enfim, se o destino tivesse querido que eu fosse um médico desses dos hospitais, a “sério”, seria por certo um cirurgião plástico ou, melhor ainda, um desses médicos cujos estranhos e silenciosos pacientes nunca se queixam por mais que os cosam ou retalhem, os médicos de Medicina Legal, médicos dos mortos.

Isto parece conversa de mau gosto mas, na verdade, é o que os meus familiares e amigos costumam gracejar quando vêem o entusiasmo com que enfrento as maiores dissecações e cortes, enxertos e suturas das mais variadas peças anatómicas, culinárias, claro está!

A receita que se segue é também possível de executar pela técnica dos papelotes, se bem que se perca algo no resultado final e, principalmente, se perca todo o gozo de execução.
O trabalho que dá é largamente compensado pelo resultado.
Refeição final das férias que ontem terminaram, já de novo em Lisboa, foi a sua preparação feita ainda antes de partir pois era necessário levar o grande frango do campo já em peças congeladas. Em viagem, tenho meios para manter uma congelação mas não para fazê-la em condições.

Ingredientes:

1 frango grande
4 fatias de presunto ( ou Bacon)
Sal e Pimenta

Preparação:

Escolha um frango que não tenha grandes rasgões na pele. Se adquirir um frango vivo a alguém que, normalmente, o mata e depena previamente, recomende que faça esse trabalho a seco ou, pelo menos, que não o escalde muito para que a pele não coza e enfraqueça.
No meu caso, que foi frango dado, tive grandes problemas por causa dessa operação ter sido feita muito a quente.

Parta o frango pela linha de simetria em duas metades.
Faça um corte em redor da base das asas e, em seguida, solte a pele introduzindo os dedos entre ela e o bicho. O objectivo é que, ao separar a perna do resto da carcaça, toda a pele daquela metade do frango venha agarrada a cada perna.
Feito isto às duas pernas, separei os peitos, que serão estrelas amanhã ou depois e guardei asas, ossos e miúdos para futura canja.
Agora, com muito cuidado, vai fazer o mesmo à perna, isto é, com o indicador em movimentos suaves vai separando a pele da carne, o que se consegue bem em toda a coxa e metade superior da perna.
Salpique com um quase nada de pimenta entre a pele e a carne e forre esta com presunto. Não ponha sal porque o do presunto é mais que suficiente.
Se estiver a usar uma perna de frango de aviário, normalmente mais magras, use Bacon em vez de presunto.
Se quiser usar Bacon numa perna gorda, retire parte da gordura amarela que está sob a pele.

Agora é que começa a sutura: trata-se de fechar totalmente a perna, por todos os lados, com a pele que saiu do peito e que está agarrada. Faça os ensaios e dobras necessários para que a costura seja o menor possível.
Se o retalho saiu bem resume-se tudo a uma costura em L no bordo de articulação com os ossos pélvicos e na dobra da perna. Se houve rasgões ou pele defeituosa ou fraca, então a coisa pode complicar-se e temos “corte e costura” para uma boa hora!
Eu, que sou totalmente nulo em coisas de trapos e costura, só sei fazer aquilo que se chama (acho) “xulear” e é assim que faço as suturas dos meus enxertos e cirurgias culinárias. Claro que também se deve poder fazer com Ponto Cruz ou Pé-de-Flor! :-)

Cosida a perna, deixe descansar por meia hora para permitir alguma troca de sal entre frango e presunto, depois é cozinhá-la apenas com calor: grelhando, assando ou fritando, a gordura do frango e do recheio, aprisionada com os sucos próprios da carne, vão deixando a carne uma delícia e a pele estaladiça toda à volta.
Eu fiz no forno, muito lentamente, 2 horas e meia no “mínimo” e 10 minutos espertos, no fim, para deixar a pele uma verdadeira maravilha crocante.

Acompanhou muito bem com um arroz de manteiga malandrinho e couve chinesa estufada em alho e umas gotas de vinho branco.


Nota:

Pode-se usar o papel de alumínio para encerrar a perna com o tempero, em vez do encerramento em pele natural do próprio bicho. Claro que o estaladiço da pele vai-se por completo e a coisa torna-se bem mais banal.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Risotto de Arroz Carolino em maçã, com frutos secos





Arbório, Carnarolli, Roma, são as mais conhecidas variedades de arroz para fazer essa magnífica especialidade italiana, hoje globalizada, que é o Risotto.

Como em todas as modas, também a moda dos risotos logo angariou a sua corte de puristas que, nunca tendo provado in loco, os risotos originais, que são os arrozes de qualquer coisa que fazem as mammas italianas, logo se afadigaram a arranjar para o risoto aquilo que ele menos precisava: um cânone!
Um cânone é uma regra estrita, estreita e cega que tem como fim garantir que qualquer idiota, ou até uma máquina, se devidamente destituído de imaginação e criatividade, consiga infalivelmente obter um resultado padronizado. É por um cânone que uma coca-cola ou um macamburger sabem exactamente ao mesmo, na China ou em Cascais!

O arroz é um tema infinito e eu, que sou “doente” por este cereal e suas variantes e técnicas, prometo voltar a ele outra e outra vez, seja por risotos, arrozes, malandrinhos, doces, pilafs…. Hoje vamos só ver a questão “variedade” de arroz para risoto.

Tecnicamente, poderia fazer-se um risoto com qualquer variedade de arroz!
Levando ao absurdo esta ideia, poderia até usar-se um Basmati ou outro desprovido de goma, se esta goma (amido de arroz) fosse adicionada ao cozinhado.
Claro que é melhor usar as variedades de bago curto e ricas em amido exterior e, dentre elas, o Carolino, versátil e de riquíssimo sabor, uma maravilha que, consoante a técnica usada, tanto pode fazer um cremoso arroz doce ou risoto como, com uma técnica apenas ligeiramente diferente, fazer um pilaf com todos os seus grãos soltos um a um. E claro que não me estou a referir a lavagens, escorridelas ou outras espertezas saloias que tirem o sabor e o aroma a este cereal magnífico.
O arroz Carolino, principalmente o originário dos arrozais do Mondego e de Alcácer, é o meu favorito para risotos. Claro que tem de ser feito com cuidado e não permite, como o Carnaroli, descuidos e mais descuidos que ele fica sempre fechado e firme. Em compensação, dá a um risoto um sabor que nenhum Carnaroli alguma vez poderá dar, porque não o tem para dar!

No prato que se segue, a primeira refeição das pequenas férias que agora acabaram, a estrela é o risoto, pois claro, na ocasião acompanhado de lombo recheado com farinheira e linguiça e puré de maçã reineta.

Ingredientes:

1 chávena de Arroz Carolino
½ Cebola roxa
1 dente de Alho
3 colheres de sopa de Azeite
3 Maçãs Reinetas
½ chávena de Sidra
1 chávena de frutos secos ( nozes, pinhões, passas)
75g de queijo tipo “prato” (Mesa do Lavrador, Lidl)
Parmesão para ralar, q.b.
Sal e Pimenta
Água de cozer as maçãs

Preparação:

Leve a cebola e o alho, picados, a refogar ligeiramente no azeite.
Quando estiverem transparentes, junte os frutos secos cortados grosseiramente e, quando as passas começarem a inchar, junte o arroz e vá mexendo até os bagos ficarem translúcidos. Atenção que o arroz não deve, absolutamente, tostar, só ficar translúcido.
Junte então a sidra, ponha o lume ao máximo para fazer evaporar bem, depois baixe o lume para médio e comece a juntar a água em que cozeu as maçãs, quente, sal e pimenta.
A partir deste momento, deve ir juntando mais água quando a anterior se esgota, sempre um pouco de cada vez, e deve mexer continuamente durante 12-14 minutos, tempo de cozedura do Carolino.
Quando estiver cozido a seu gosto, junte o queijo prato (pode usar Mascarponne, paga o triplo e, neste caso, o resultado é o mesmo), mexa até ficar homogéneo e depois feche a cozedura com uma última porção de caldo, mas frio.
Sirva logo e deixe que cada pessoa rale para o prato Parmesão a gosto.

Vinho:

Este magnífico risoto foi acompahado por um não menos excelente Roda dos Coelhos, sobre o qual o Cupido já disse o que havia a dizer, aqui.





segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Férias à Chuva

O ideograma japonês que representa a ideia de bênçãos é dos mais simples: umas pintinhas a desenhar as gotas de chuva. Chuva é bênção!

Desenganado por todas as previsões meteorológicas, nacionais e planetárias, foi para esta prevista chuva que parti antes que 2008 acabasse e, um pouco por toda a parte, se entrasse na histeria colectiva que, todos os finais de ano, agenda programada folia, consumismo, optimismo e outros “ismos” radiosos, a fingir que tudo o que é mau vai acabar e o próximo terá enfim muita Paz, o fim da fome e da guerra, amor entre os homens e mulheres deste canto do universo, enfim, vocês sabem, a conversa das misses qualquer sítio quando são eleitas… mais a mãe da primeira criancinha da maternidade Alfredo da Costa a nascer no novel ano, toda contente por ir aparecer na televisão, mais o pimpolhinho todo vermelho e enrugado, e receber 500 fraldas descartáveis e 100 quilos de nestum ou cerelac, que a vida afinal parece que não está nada boa!

Eu, em passando o adorado Natal, entro em fase de melancolia, como se dizia antigamente.
Como não sou dado a depressões, diria antes que me vou chateando até, lá para 31, estar tão chateado como um peru a 24!
Este ano, decidido a não ter que fingir, educadamente, a tal alegria etílica da “passagem”, decidi fugir para o Mar, para a última costa intocada e maravilhosamente selvagem que nos resta: o Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Telemóvel desligado para não receber aqueles votos de bom ano pré-formatados, com um arremedo de poesia , frase filosofóide ou até graçola brejeira que todos tão bem conhecemos, ( como aquilo se copia e reencaminha, lá para a meia-noite já se têm várias repetidas), na companhia da Maria José, que é, felizmente, da minha “espécie”, um grande frango mesmo do campo e grande vontade de ir ao peixinho “lá de baixo”, fomos na “Alta”, que é o “petit nom” da nossa autocaravana, velha companheira de muitas e boas viagens por esse mundo fora.

Os bons amigos livros, o bom vinho indicado pelo Cupido, o Sol e a maré a possibilitarem uma generosa colheita de percebes (e o primeiro banho de mar do ano) no Monte Clérigo, a visita da Isabel e do Joaquim, nas arribas da costa frente à Ilha do Pessegueiro, os petiscos, é claro, e também as noites uivantes das falésias selvagens e águas revoltas, fizeram destas curtas férias uns dias inesquecíveis de cuja vertente gastronómica vos darei conta a partir de amanhã, aqui.

No fim, ontem, fui ainda visitar a Gina, sim, a tal dos biscoitos de que vos falei e de outras travessuras de infância, hoje com 83 anos, rija, na sua casa de Relvas Verdes.

Em relação às fotos, não tenho, infelizmente, grande coisa a apresentar. Eu tenho uma máquina relativamente sofisticada; bom, de qualquer modo bem mais sofisticada do que o fotógrafo, pelo que, naturalmente, deixo-a trabalhar sozinha e pouco mais faço que carregar no botão.
Desta vez, como o tempo estava assim cerrado, armei-me em profissional, passei a maquineta para modo manual, pois claro, mexi em todos os botões, alavancas e joysticks e o resultado … está à vista! Só se safam as de comida, que são feitas num formato predefinido. :-)




A "Alta" junto ao mar, nos Eivados.


A Maria José, o João, o Tomás e a Isabel, frente à Ilha do Pessegueiro.

Praias pequenas e desertas, ainda sem nome "oficial"


A bela Praia da Arrifana

Costa da Carrapateira. Algures naquela ponta, lá ao fundo, está a Risonha.

Monte Clérigo. Dia de praia e percebes!

Praia do Amado, a costa ainda intocada (por quanto tempo?)

Eu, a Maria José e a Gina (sim, a própria dos "biscoitos")