sexta-feira, 13 de maio de 2011

Bag in Box - Amoreira da Torre 2009



Fui um dos cavalheiros da enorme távola redonda do David, mas pouco sei sobre adstringência, excesso de taninos, pouca acidez, vou para sempre evoluir mal na garrafa, só sei se gosto ou não gosto.”
     Rui Cardoso Martins in Evocando David Lopes Ramos, Clube de Jornalistas, 30-4-2011

Há palavras que dizem tudo de nós, apesar de vindas de outra pena e é inútil procurarmos outra forma de dizê-las: este sou eu frente aos vinhos, igualzinho ao Rui Cardoso Martins, que as escreveu e a muitos dos meus leitores que, como eu, bebem um copo de vinho à refeição, não a todas ainda assim, e  confrontam-se diariamente com a questão de como conservar uma garrafa de vinho aberta por dois ou três dias sem que o bom vinho do dia de abertura perca grande parte da graça e, para o fim, já não tenha mesmo graça nenhuma.
É para todos nós que gostamos de vinho mas não estamos na esfera iniciática das provas, dos enófilos, dos néctares raros, do wine pairing, dos vinhos "difíceis" dos grandes conhecedores, que este sistema de acondicionamento de vinho de que vos vou hoje falar é absolutamente indicado: o Bag in Box!

 O formato “bag-in-box” (BiB) fecha o vinho em bolsas de plástico alimentar, por regra PET, cobertos por uma folha de alumínio. O princípio é em tudo semelhante à técnica isolante das famosas embalagens Tetra-Pak. Estes sacos (bags), que permanecem invisíveis dentro de uma caixa de cartão (box), costumam conter  2, 3, 5, 6 e 10 litros, sendo os mais vulgares de 3 ou 5 litros. Incluída na embalagem está  uma torneira de serviço com uma válvula de passagem que impede a entrada de ar. Essa torneira permite dosear com precisão o volume de vinho a ser servido.
O formato BiB é comum nos países mais evoluídos do norte da Europa  onde chega a representar 50% do volume de vinho vendido, mas no  sul da Europa a sua aceitação tem sido mais controversa, estando a enofilia destes países, tradicionalmente elitista e conservadora, renitente em aceitar esta inovação técnica e criando no consumidor a ideia de que grandes volumes (exceto as suas queridas magnum) são sinónimo de vinhos de qualidade inferior.
As vantagens do “bag-in-box” para o consumidor são evidentes: como o vinho é embalado em vácuo e o saco vai-se esvaziando sem que haja entrada de ar à medida que o vinho vai sendo consumido, mantém-se sempre fresco, sem quaisquer sintomas de oxidação.

Do ponto de vista ambiental, a passagem para esta embalagem teria um impacto positivo tremendo, como refere a Revista de Vinhos nº227: "Um BiB de 3 litros gera cerca de metade das emissões de uma garrafa de 0,75l. Se 97% dos vinhos a serem bebidos jovens passasse para BiB, conseguiam-se reduzir a emissões de gases de efeito de estufa em 2 milhões de toneladas, o equivalente a retirar de circulação 400 mil automóveis".
Infelizmente são ainda muito poucos os produtores que, entre nós, têm a ousadia de apresentar esta opção de embalagem para os seus vinhos, sendo que alguns, envergonhados, o fazem para exportação mas não se atrevem ao mercado nacional.
Felizmente, porque há em todos os campos uma valorosa pequena percentagem de inovadores e gente que não se deixa amedrontar pelas mainstream ideológicas, já vai sendo possível encontrar vinhos de valor em BiB's nos nossos supermercados, distinguem-se pelo preço , um pouco mais alto que os correntes mais vulgares (infelizmente, nenhum enófilo se atreve ainda a dar nota a um vinho BiB).

Produzido em Montemor-o-Novo em vinhas antigas da Herdade da Amoreira da Torre, reconvertidas para agricultura biológica, agora certificada, com castas Trincadeira, Aragonês e Cabernet, este Amoreira da Torre 2009 é um vinho de que muito gosto, que conheci nas noites de tertúlia no Espaço do Tempo, o espaço coreográfico e cultural de Rui Horta, no castelo de Montemor-o-Novo.
Pode comprá-lo a 8.99€ nos Continente, em BiB de 3 litros e é um encontro com um vinho que Paulo Laureano faz respeitando o que a Natureza opera quando transforma uvas em vinho.
Não esqueça, quando o beber, de esperar um pouco para deixar o néctar "abrir" no copo: é que no sistema BiB, de cada vez que se serve, é como se a "rolha" tivesse sido acabada de tirar!

3 comentários:

cupido disse...

Luís, a chatice do BIB é dupla: se por um lado há poucas pessoas que compram, pelo outro há a falta de oferta de vinhos minimamente decentes. Tenho para mim que o BIB, para além da parte da redução do desperdício, tem inúmeras vantagens. A primeira é logo o preço, já que o vinho em BIB é mais barato que o mesmo vinho na garrafa. Em segundo, resolve, como referiste, o problema da conservação do vinho. Para os restaurantes seria uma bela alternativa às garrafas, quer para vinho a copo, quer para o vinho da casa servido no jarro. Num almoço apiquenicado de verão, nada melhor que uma BIB de vinho branco mantida fresca.

É pena que a maior parte dos produtores não embalem vinhos melhores em BIB, já que 99% são os de base da gama. Esse que provaste não conheço, mas há um também alentejano, chamado Le Loup Noir que tem agradado a algumas pessoas que conheço. E quanto a provas e notas, a Revista de Vinhos fez em tempos uma prova e as classificações foram muito baixinhas.

João disse...

Olá Luís,
Este vinho ainda não conheço, tenho de procurar!
Mas BiB recomendo o MONTE DAS PIAS tinto, produzido na Herdade das Pias, perto de Beja. É um vinho fácil de agradar e equilibrado, ideal para o dia-a-dia. A embalagem é de 5l e custa menos de 8€ nos supers, no produtor ainda menos. Por cerca de 1,5€ o litro, tem-se uma excelente relação qualidade preço.

O problema é agora no verão, se quero beber o vinho mais fresco, tenho que arranjar mais espaço no frigorífico...

Abraço,
João Vasco

LPontes disse...

João Vasco,

Desconhecia um BiB da Herdade das Pias de que conheço (e gosto muito) dos T&T, Tc&T e S&T.
A ver se encontro...
Bom fds.