
Daí talvez que, apesar de ter uma relação algo difícil com este género musical enquanto artigo do show business, “alma de um povo” e negócio de milhões, mantenha essa capacidade de arrepio e emoção perante algumas vozes, geralmente desconhecidas, que se levantam ainda nalguns pouquíssimos recantos onde teima em não se extinguir, o fado vadio.
Quando o Cupido propôs para esta Trilogia das quartas feiras, comigo e com a Ana, o tema “Fado”, o que ofereceríamos de comer a uma fadista, a minha memória recuou muitos anos, quando sítios como o Solar da Madragoa, na Rua das Trinas, não estavam ainda, como hoje, apinhados de turistas sequiosos de fado genuíno, depois da mais que provável experiência sempre defraudante de uma noite em restaurante de luxo fadisteiro (pelo menos no preço) em que se jantou enquanto se ouviam umas variedades musicais fadistas por algum fadista da televisão, antes de, só por graça, se convidar quem quiser a ir fazer uma espécie de karaoke faduncho de grão na asa e lá se ouve o Fado do Embuçado, a Menina das Tranças Pretas ou algum genérico de telenovela.
Hoje já não há sítios assim, em que havia fado se o vizinho velhote da guitarra não estivesse tolhido do reumático e o da viola demasiado bêbedo para tocar.
É desses sítios, do que deles resta e do que neles comi e bebi, sim, com os fadistas a sentarem-se à nossa mesa
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e a petiscarem do nosso chouriço assado e a beberem um copinho do nosso jarro,

para aquecer a voz, com uma patanisca ou pastelinho de bacalhau, ou peixinho da horta ainda mornos ou já ressequidos do almoço, que vos vou falar.
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Nas tabernas, à noite, não se serviam refeições propriamente ditas, os petiscos eram alibi para mais um copo, que o negócio estava nas pipas, e estavam feitos, sobre o balcão, deixados pela cozinheira quando a cozinha fechava após o jantar e se começava a preparar a noite.
Depois, apagava-se alguma velha televisão lá no canto junto ao teto, começavam-se a afinar as cordas, o vinho em jarros de barro ou de vidro já a pedir com que ensopar, ia-se ao balcão e pediam-se para a mesa, coisas tão improváveis como tiras de bacalhau seco sobre broa,
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........ Zé Manel, fadista que cobra o seu cachet em cerveja
desembrulhava-se de mantas e jornais uma panela que, afinal, ali tinha estado sempre e de onde se servia um fumegante caldo verde com a sua rodela de chouriço e o azeite cru a boiar e que se comia ao mesmo tempo que uns charrinhos alimados, se havia,
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Entretanto, acontecia o fado!
..... e na próxima quarta feira, há mais trilogia, conduzida pela Ana!
3 comentários:
Gostei muito desta trilogia e dos resultados. A viagem que apresentaste pelos petiscos das Casas de Fado é tentadora.
E agora, vamos à 13ª trilogia.
Genial! Obrigado!
Cumprimentos,
Espero que tenhas gostado tanto da viagem pelo mundo do fado, quanto eu...
Se avaliar pelo nº e qualidade de petiscos que saíram da tua cozinha, não nos restam dúvidas que sim...
Beijinhos.
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