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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Patifas (Empadinhas de galinha e farinheira)

                Temos por vezes a veleidade de pensar que criamos algo novo nas nossas cozinhas, mas, na maior parte das vezes apenas recriamos o que alguém já fez, tendo esse alguém usado também aquilo que foi a sua história e a sua aprendizagem naquilo que recriou. É isto a tradição.
Confesso que gostava de vos dizer que estas empadinhas, uma perdição, tão perdição que a minha filha Joana as baptizou de “Patifas”, tinham sido uma invenção minha, mas não seria verdade. Elas são o resultado da fusão de duas empadas que tantas vezes disputam a minha indecisa preferência enquanto espero que cheguem à mesa umas bifanas em Vendas Novas. 
Reúnem o melhor da empadinha de galinha de Montemor-o-Novo, de que já vos falei aqui, com umas outras, oriundas do marketing “bifaneiro” de Vendas Novas: a empadinha de farinheira.
O resultado, a Patifa, é algo de portentoso, que, até que alguém com estabelecimento aberto se lembre de fazer para vender, vai apenas poder experimentar na sua cozinha, como eu faço na minha.
Apesar de não ajudarem nada à linha para a praia, valem bem a pena!

Ingredientes:

2 pernas de galinha grande (ou frango do campo)
2 farinheiras
Miolo de pão duro
2 dentes de alho
Pimentão em pó, fumado
Salsa fresca
Hortelã fresca
Sal e pimenta
Massa tenra
Banha para untar formas
Ovo para pincelar

Preparação:

Coza em água com sal as pernas e as farinheiras.

Retire toda a gordura à superfície do caldo e use-a juntamente com caldo e farinha sem fermento para fazer uma massa tenra.

Desfaça miolo de pão duro para dentro de uma tigela, regue com caldo bem quente e faça uma açorda temperada com sal, pimenta, salsa fresca e alhos esmagados.
Junte o interior das farinheiras cozidas, pimentão fumado
e por fim a carne desfiada em pedaços grandes.
Unte com banha as formas, estenda e corte a massa tenra como foi dito aqui, forre as formas, recheie e termine com um pedaço de hortelã
antes de fechar com a tampa e fazer a tradicional “costura” na massa.

Pincele com ovo
e leve a forno quente (180ºC) durante cerca de 20 minutos ou até estarem douradas.

Quentes, mornas ou frias, com estas Patifas o difícil é parar!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Empadas de galinha (Montemor-o-Novo)

                      Há muitos, muitos anos, quando eu não fazia ainda ideia de que Montemor-o-Novo iria tornar-se, anos depois, a minha terra adoptiva por mais de uma década, as minhas passagens pela então vila eram pautadas por dois acontecimentos da esfera gastronómica: a carne de porco frita em banha de cor do quiosque em frente à estação ferroviária (que ainda funcionava) e a paragem obrigatória no Café Sampaio para as empadas de frango, melhores não havia.
Nesses anos em que não tinha ainda havido a grande miscigenação culinária das últimas duas décadas do Sec.XX, até num assunto tão básico como umas empadas, sabia-se o que esperar de cada terra e da sua tradição: havia as folhadas de Beja, as de Elvas com uma massa que parecia um bolo, as de Vila Viçosa com fumados e uma azeitona lá dentro, as de Estremoz, de Arraiolos, de Borba e, claro, as de Montemor-o-Novo, cujo expoente eram as do Sampaio.
Hoje, onde estava o Café Sampaio está um banco, a estação ferroviária está encerrada há mais de vinte anos, dizem-me que as melhores empadas são agora as do Pólo Norte, do  “Cortiçadas”, e eu acredito, mas o facto é que se perdeu a identidade de outrora, o sentido de pertença que a mobilidade levou para sempre, e se no Pólo Norte continuam a ser empadas de Montemor, já uns metros abaixo se podem encontrar umas folhadas industriais com um creme alaranjado e indistinto lá dentro.
Para esta 105ª Trilogia com a Ana e o Amândio, cujo tema é “Alentejo”, vou aqui deixar as empadas que depois, vivendo lá, aprendi a fazer com grandes cozinheiras populares da minha aldeia adoptiva a escassos vinte quilómetros de Montemor-o-Novo, onde se chegaram a fazer as empadas que depois eram vendidas na cidade. Assim, (com os truques que não figuram em nenhum receituário):

Ingredientes (18-20 empadas):

1 frango gordo
1 cebola
2-3 dentes de alho
Farinha
1 fatia de pão alentejano
1 ovo (para pincelar)
Salsa
Sal
Pimenta preta em grão
Sálvia (facultativo)
Mangerona ou hortelã
½ linguiça (chouriço caseiro* alentejano)

Preparação:

Retire a pele e todas as gorduras ao frango e reserve-as. Parta o frango em pedaços e coza-o em água com sal, pimenta preta em grão, salsa, duas ou três folhas de sálvia, um ramito de mangerona (ou hortelã) e uma cebola.
Reserve o caldo, desfie as carnes cozidas e misture-as com salsa picada e com uma fatia de pão alentejano triturado até ficar em migalhas muito finas.
Leve as peles e gorduras ao lume de modo a extrair toda a gordura. Se o fizer no micro-ondas, o processo demora menos de cinco minutos e é muito eficaz na extracção.
Com esta gordura, ainda quente, farinha sem fermento e caldo do frango, faça uma massa tenra e deixe-a repousar.
Estique um pedaço de massa e corte duas rodelas, uma do tamanho das formas e outra muito maior.
Com a maior, forre a forma, previamente untada com banha ou gordura de galinha, de modo a que fique um excesso a sobrar para fora, como uma gola.
Encha a forma forrada com carne desfiada, coloque em cima uma rodela de linguiça e uma folha de mangerona ou hortelã,
deite sobre a carne uma colher de sopa de caldo (as migalhas de pão destinam-se a manter esse líquido junto da carne) e tape com a rodela de massa mais pequena.
Una esta rodela com a sobra da outra maior e revire sucessivamente as duas massas
de modo a fazer a costura característica.
Pincele com ovo batido e leve a cozer em forno quente (180ºC) durante cerca de 20 minutos, ajustando de modo a que fiquem uniformemente douradas.
Difícil mesmo é conseguir esperar o suficiente para não se queimar.
Nota: * Quando falo em enchidos “caseiros”, não estou a referir-me a produtos feitos por particulares, na suas casas e com os seus porcos, onde também se encontram, a par de excelência, muitas desilusões e amargos de boca. Refiro-me a produtos industriais, feitos por unidades locais segundo receitas tradicionais, geralmente de muito boa qualidade e isentos dessa praga química dos polifosfatos, que desgraçou o fumeiro português e se prepara agora para desgraçar o bacalhau.