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domingo, 28 de dezembro de 2025

BOLO "ADULTO" (ou bolo para quem não gosta de bolos)

 

 


              Teve como inspiração a versão original do bolo de mel da Madeira, mas afastando-se definitivamente daquilo em que aquele se tornou, com o tempo e as exigências da industrialização. A introdução do pinhão e a substituição da doçura caramelizada do "mel" de cana-de-açúcar pelo sabor enérgico e exigente da água-mel, levou à escolha do nome.
Não conte com ele para o lanche de crianças: tal como das favas, há gostos que só vêm mais tarde. 

INGREDIENTES :

50g de miolo de noz
50g de miolo de pinhão (nacional)
125g de farinha de amêndoas
200g de farinha 650
1 c. de chá de fermento químico para bolos
175g de cidrão cristalizado
100g de manteiga c/ sal
50g de banha
150g de água-mel
2 ovos
30ml  de rum (ou Cognac)
1 c. de chá de gengibre em pó
1/2 c. de café de noz moscada (moída na altura)
Cidrão cristalizado, metades de noz e pinhões, para decoração (além do já indicado)

PREPARAÇÃO :

Parta o cidrão em pedaços pequenos e deixe-o a macerar durante a noite no rum ou Cognac.



Junte depois os pinhões e as nozes partidas
e deixe macerar mais uma hora.
Funda as gorduras

e misture as farinhas, ovos e todos os outros ingredientes. Misture bem.
Adicione por fim o cidrão, os frutos secos e o rum ou Cognac.




Forre uma forma com papel de fornear, verta a massa, decore a superfície com o cidrão cristalizado que tinha reservado, nozes e pinhões

e leve ao forno, a 180°C durante 15 minutos, depois baixe para 170°C até estar cozido, o que acontece em cerca de 30-40 minutos.

Deixe arrefecer antes de desenformar.


Ao servir, se quiser, combina muito bem com chá preto e "marmalade" (compota de laranja amarga).





terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Broas fervidas de água-mel e cidrão.

 


       Com a enorme variedade de pormenores que sempre caracterizam as receitas populares, mais sujeitas a  saberes do que a cânones, as broas fervidas da região ribatejana, determinam um modo básico de confecção, que as definem sem as subjugarem. 

Cada "broa fervida" é feita pela receita "da avó", umas levam café, outras só mel, umas farinhas de trigo e milho, outras só trigo, umas canela, outras erva-doce, quase todas nozes, algumas amêndoas... e são todas deliciosas, todas "broas fervidas", cada um puxa a brasa à broa da sua infância e têm todos razão.

Eu não sou ribatejano e, para mim, broas fervidas são uma iguaria que não dispenso a acompanhar o café, sempre que o passeio me faz passar por Abrantes, Torres Novas, Ponte de Sôr...

Este ano, em que o Outras Comidas esteve vergonhosamente encerrado*, para que se não dissesse que 2024 tinha passado em vão, decidi compor as minhas broas fervidas, que são por isso... as minhas.
Para estas broas fervidas, troquei praticamente tudo o que as "normais" levam, só assim fariam sentido, só se fossem algo novo, algo que eu não pudesse comprar por meia dúzia de Euros, à escolha. 

Foi assim que nasceram as broas fervidas de água-mel e cidrão.
A água-mel é um subproduto da cresta do mel, pouco conhecida, uma espécie de "mel-de-segunda" feita com os resíduos que ficam nas alças, ceras, utensílios do apicultor. Dessa "água" açucarada, depois de concentrada por fervura, fica um melaço negro e viscoso como o melaço de cana com que se fazem aqueles bolos típicos da Madeira : é a água-mel.


É uma delícia e, em princípio, só a poderá obter junto de um apicultor.
Do cidrão já aqui falámos detalhadamente e continua a ser uma raridade quase inatingível a menos que o faça, como eu faço.

Ingredientes :

500g de farinha de trigo 55
100g de farinha de amêndoas
250g (+50g) de cidrão cristalizado
100g de nozes picadas
25g de gengibre cristalizado, picado muito fino
1 c. chá de canela

350g de água-mel
250g de azeite**

Preparação :

Pique as nozes, o gengibre cristalizado e o cidrão (excepto a parte que servirá para enfeitar a broa) e misture com o resto dos sólidos.


Leve ao lume a água-mel e o azeite, que pode ser do refinado**, até ferver e junte então os sólidos, mexendo sempre até a bola de massa se soltar do fundo, como acontece quando se coze farinha para massa de choux ou rissóis.

Deixe arrefecer até estar manuseável, tenda broínhas com mais ou menos o volume de uma  colher de sopa e disponha num tabuleiro forrado com papel de fornear.

Coloque um pedaço de cidrão em cada broa e leve a forno a 180°C durante cerca de 10 minutos. Este tempo é que determina a consistência mais dura ou mais tenra da broa e deverá fazê-las a seu gosto, naturalmente.

Ainda quentes, passe por açúcar e estão prontas. Conservam-se muito tempo e nunca endurecem.
Maravilhosas para acompanhar o café.

Notas:  * O Outras Comidas foi (é!) uma aventura que começou com o blog que o precedeu (Comidas Caseiras) no longínquo 2007, tchiii! já vão 18 anos, uns fortes outros fracos, como em tudo na vida, sem qualquer pretensão editorial e em que fui cometendo e continuo a cometer o "crime" da independência. Por aqui nunca mandaram outras regras que não fossem as do meu gosto, nunca embarquei em modas, regras da "boa" cozinha, mitos, pressas ou seguidismos de "chefias" de hotelarias mais ou menos estreladas ou pretensas sacralizações por antiguidade ou costume. Sempre e só a cozinha que eu faço para mim e para os amigos, do que gosto e como gosto, quero lá saber que alguém ache que sabe como "se deve" comer isto ou aquilo, e pior ainda, que ache que pode dizer aos demais que o seu gosto é que é o "certo". 

Esta independência foi sempre a força do Outras Comidas, mas também a sua fraqueza: como não faço cedências a obrigações, vendas ou patrocínios, as comidas, as que eu como realmente, vão escasseando, na verdade cerca de 800 receitas depois, já não há muito para publicar, sem cair em repetições. Essa é uma das razões para as prolongadas ausências, que alguns amigos me têm feito notar, e bem. Já ir no 70° ano de vida, com os seus achaques e vagares, também não ajuda.

 Mesmo assim, não quis passar 2024 em vão. Aqui ficam estas deliciosas (e originais!) Broas Fervidas de Água-mel e Cidrão, com votos de um excelente 2025 para todos vós. Tentarei vir aqui, em 2025, sempre que puder. 

** O uso de azeite virgem em fritura ou qualquer preparação culinária que implique o seu aquecimento forte é pura perda. De facto, o que faz um azeite ser virgem, de qualidade extra ou não é, entre outros, o facto de ser extraído a frio. Assim que aquecido, qualquer azeite  deixa de ser virgem e passa a ser igual a um azeite refinado, geralmente designado por "tradicional" e que é uma mistura de óleo refinado de azeitona e azeite virgem. Desde que não seja para consumo cru, o uso de azeite "virgem extra" é, do ponto de vista culinário, tão útil como temperar uma panela de batatas cozidas com flor de sal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Dom Cidrão (técnica de cristalização)


Era o “verde” e o sabor especial do antigo bolo-rei.

Quem comeu bolo-rei há mais de 50 anos, fosse ele o da Nacional ou da humilde pastelaria de bairro, lembra certamente esse sabor especial que hoje falta e que  atribui à desaparecida frescura sensorial da meninice, mas que, na verdade, é apenas  devida à quase extinção de um fruto “mágico”, na altura ainda frequente mas que tinha contra si o facto de, na prática, só servir para ser cristalizado, já que é incomestível em natureza: o cidrão!

Resultante do cruzamento entre a toranja, o limão e a tangerina, o cidrão foi sendo progressivamente abandonado à medida que as novas gerações procuravam mais rentabilidade dos seus citrinos e substituído por fruteiras de uso mais geral. Até na Ilha da Madeira, onde o cidrão cristalizado faz parte da receita do tradicional bolo de mel de cana, acabou substituído por cascas cristalizadas de outros citrinos e o seu fabrico abandonado.

Assiste-se hoje a tímidas tentativas de preservação do seu cultivo, no Norte de Portugal, levadas a cabo mais por intuitos culturais e afectivos do que por verdadeira procura, estando perdida a própria técnica de processamento, mercê do hiato verificado, fazendo-se a sua cristalização pelos processos usados para a cristalização de cascas de citrinos, o que é totalmente inadequado ao cidrão.

Fui encontrar o cidrão num local improvável, um pomar de uma casa senhorial adaptada a turismo de habitação, próximo de Ponte de Lima.

A árvore é em tudo semelhante a um limoeiro


e, auxiliado por uma boa dose de sorte e pela inexcedível gentileza do casal de produtores,  comprei alguns dos seus enormes frutos. Do processo da sua cristalização, que experimentei pela primeira vez e que correu na perfeição, deixo-vos em seguida informação detalhada.

Ingredientes:

Cidrão

Açúcar

Sal 

Preparação:

 Na aparência semelhante a um limão muito grande, é ao seccionar um cidrão que se percebe a sua grande diferença em relação a todos os outros citrinos: enquanto numa laranja ou limão toda a parte branca entre o vidrado e os gomos é formada por tecidos mais ou menos moles e esponjosos, no cidrão encontramos  uma polpa firme e lisa.


É esta polpa que, cristalizada com o vidrado aromático, vai dar origem aos pedaços grossos e firmes, característicos do cidrão cristalizado e não a uma “casca” cristalizada, como hoje geralmente se apresenta, nos raros locais onde ainda se consegue encontrar. 

Antes de passar à técnica propriamente dita, devo frisar que a cristalização de qualquer fruto é um processo lento e progressivo de substituição da água intracelular por açúcar. Não há qualquer hipótese de pressas ou “saltos” no processo, que irá decorrer em fases durante cinco a seis dias. Aqui, como aliás em toda a culinária, o factor tempo não é negociável. 

- Parta os cidrões no sentido do comprimento e retire a parte mais interna, constituída por gomos bastante secos e cheios de sementes.


Cubra estes pedaços com água a que adicionou sal, na proporção de uma colher de sopa bem cheia por cada litro de água.


Deixe nesta salmoura leve por duas horas. 

Coza os pedaços de cidrão em água sem sal, durante 15 minutos. Escorra.


Vamos tentar a cristalização através de procedimentos intuitivos, evitando o recurso a termómetros e pesa-xaropes que, por experiência própria e observação alheia, costumam ser elementos mais de confusão e atrapalhação do que de precisão. 
Iniciemos então o trabalho, preparando uma calda leve com um litro de água e um quilo de açúcar. Introduza nesta calda em ebulição os pedaços cozidos de cidrão e deixe ferver de novo e por cerca de cinco minutos. Tape o recipiente e deixe a arrefecer até ao dia seguinte.

No dia seguinte poderá notar que os pedaços de cidrão se tornaram menos brancos e mais translúcidos: é o processo de cristalização a iniciar-se.


Retire-os da calda e escorra. Leve então a calda ao lume e deixe ferver, destapado, até que o volume de líquido se tenha reduzido em cerca de um sexto. 

Introduza o cidrão, deixe ferver por mais cinco minutos e deixe a arrefecer até ao dia seguinte, onde poderá verificar que aumentou o grau de transparência do fruto.


Repita este processo por mais três ou quatro dias : escorrer o cidrão, levar a calda ao lume para reduzi-la, aumentando gradualmente o ponto de açúcar, introduzir a fruta de novo e deixar ferver por cinco minutos, arrefecer, etc.

Se neste processo verificar que deixou de ter nível de líquido para cobrir o cidrão, em vez de deixar ferver para reduzir, adicione simplesmente mais açúcar de modo a manter o fruto imerso.


Ao fim de quatro ou cinco dias deste processo, o cidrão estará totalmente translúcido e o açúcar terá o aspecto de mel (ponto de espadana, 117ºC), estando o cidrão perfeitamente cristalizado e podendo utilizá-lo assim.


Pessoalmente, prefiro que esteja com a superfície seca, pelo que o disponho sobre uma grelha, ao sol ou no forno regulado para 60ºC e porta aberta.


Pode ainda envolvê-lo em açúcar, o que facilita o armazenamento por períodos longos sem que haja aderências entre os pedaços.